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Terça-feira, 21 de Julho 2026
Notícias/Economia

Pix brasileiro desafia controle financeiro dos EUA, gerando tensões geopolíticas

Especialistas indicam que o tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros reflete a preocupação de Washington com a crescente soberania econômica do Brasil e o impacto do Pix.

Pix brasileiro desafia controle financeiro dos EUA, gerando tensões geopolíticas
© Bruno Peres/Agência Brasil
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O sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, tornou-se um ponto de atrito para o governo dos Estados Unidos, que o vê como um desafio direto ao seu controle financeiro dos EUA sobre a infraestrutura de pagamentos eletrônicos no Brasil. Essa percepção, avaliada por economistas e especialistas em relações internacionais consultados pela Agência Brasil, sugere que a imposição de um tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, articulada pela administração de Donald Trump, tem raízes mais profundas em questões geopolíticas do que em meras rivalidades econômicas com empresas como Visa, MasterCard ou Whatsapp Pay, visando mitigar a crescente soberania financeira do país.

Maicon Cláudio da Silva, professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), enfatiza que o questionamento ao Pix está intrinsecamente ligado à diminuição da influência e do poder norte-americano sobre o sistema financeiro brasileiro.

“Esse tipo de medida evidencia que os EUA não desejam perder o poder que hoje detêm sobre o sistema financeiro em grande parte do mundo. Não é por acaso que a China, por exemplo, não utiliza Visa e Mastercard, optando por sistemas próprios que garantem maior soberania e autonomia ao país”, explicou Silva.

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Apesar das tensões, Silva recorda que o Pix impulsionou significativamente a bancarização da população brasileira, o que, paradoxalmente, gerou benefícios econômicos também para as empresas dos EUA.

Transações que antes eram realizadas apenas em dinheiro passaram a ser efetuadas via sistema financeiro, por meio do Pix, facilitando o acesso de milhões de pessoas a contas bancárias e, consequentemente, a cartões de crédito.

Em 2025, os cartões de crédito movimentaram R$ 4,5 trilhões, um aumento de 10,1% impulsionado pela expansão do Pix, conforme dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).

Impactos econômicos imediatos e o jogo de poder

O professor da UFRRJ aponta que, no curto prazo, o tarifaço tende a prejudicar mais as empresas americanas, visto que os EUA mantêm um superávit comercial com o Brasil. Nesse cenário, os interesses econômicos imediatos parecem ser secundários.

“Do ponto de vista imediato, essas taxas acabam prejudicando mais os EUA. Por isso, essa é uma política econômica internacional focada em exercer poder por meio de sanções e tarifaços, com o objetivo de pressionar os países a se submeterem aos Estados Unidos”, concluiu Maicon Cláudio da Silva.

Pix: um instrumento de soberania brasileira

Ronaldo Carmona, professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), destaca que o Pix se consolidou como um instrumento de poder para o Brasil, fortalecendo a soberania econômica e financeira da nação.

“Ao ampliar a autonomia e a soberania do país, o Brasil pode fomentar o comércio exterior bilateral com outras nações utilizando moedas nacionais, distanciando-se da arbitragem e da senhoriagem do dólar”, comentou Carmona.

Adicionalmente, o Banco Central do Brasil possui acordos de cooperação técnica com 47 países para a implementação de sistemas análogos ao Pix, o que pode enfraquecer ainda mais o controle de Washington sobre as transações financeiras em diversas regiões do mundo.

A capacidade do Pix de contornar sanções

Sistemas de pagamentos nacionais, como o Pix, têm a capacidade de limitar a aplicação de sanções econômicas impostas pelos EUA contra instituições e indivíduos, um contraste marcante com o que ocorre nos sistemas americanos, explica Ronaldo Carmona.

Isso se deve ao fato de que as plataformas de pagamento com sede nos EUA geralmente cumprem integralmente as sanções determinadas pela Casa Branca.

Maicon Cláudio da Silva, da UFRRJ, exemplificou essa projeção de poder de Washington sobre países soberanos por meio de bloqueios financeiros, citando as sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o histórico bloqueio a Cuba.

“O avanço do bloqueio econômico dos EUA contra Cuba resultou na saída da Visa e da Mastercard da ilha. Ao controlar os meios de pagamento, os EUA podem, a qualquer momento, impor algum tipo de sanção econômica contra países ou indivíduos”, detalhou o professor.

Europa e a busca por autonomia financeira

A revista inglesa The Economist, em um artigo publicado pouco antes do anúncio do tarifaço contra o Brasil, já havia apontado que o Pix brasileiro, juntamente com outras iniciativas da União Europeia (UE), representava uma ameaça à “supremacia” financeira dos EUA.

“A ascensão de sistemas ‘soberanos’, especialmente na Europa – uma fonte significativa dos negócios internacionais da Visa e da Mastercard –, poderia corroer suas invejáveis margens operacionais, que superam os 50%”, destacou a revista especializada em finanças globais.

Recentemente, a UE anunciou o Euro Digital, um sistema de pagamentos eletrônicos similar ao Pix, gratuito e de acesso público, com previsão de lançamento do projeto-piloto para 2027.

Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), foi explícita ao afirmar que o objetivo é reduzir a dependência de sistemas estrangeiros.

“Dependemos predominantemente das redes americanas, mas também, por vezes, das chinesas, para organizar os pagamentos. Precisamos de uma solução europeia porque queremos ser soberanos internamente”, declarou Lagarde ao portal Euronews.

FONTE/CRÉDITOS: Com informações da Agência Brasil
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