Embora quase a totalidade das gestantes no Brasil (99,4%) realize ao menos uma consulta de pré-natal, a continuidade desse acompanhamento essencial para a saúde materna e infantil apresenta quedas acentuadas entre mulheres indígenas, de baixa escolaridade e moradoras da Região Norte. Os dados constam em um levantamento publicado nesta segunda-feira (13), realizado por especialistas do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel) em conjunto com a Umane, entidade focada na melhoria do sistema público de saúde.

Ao analisar a média geral, o preenchimento do ciclo de sete consultas cai de 99,4% no início para 78,1% ao fim do período. Especialistas reforçam que o acompanhamento ideal deve começar logo na confirmação ou suspeita da gravidez, preferencialmente antes da 12ª semana.

Os números indicam que a formação educacional é um fator determinante para a conclusão do pré-natal. Enquanto 86,5% das grávidas com maior nível de instrução finalizam as consultas, o índice despenca para 44,2% entre aquelas que tiveram menos tempo de estudo formal.

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A desigualdade social torna-se ainda mais evidente no caso de mulheres indígenas com pouca escolaridade, que enfrentam a sobreposição de vulnerabilidades étnicas e educacionais. Nesse grupo, apenas 19% conseguiram realizar o número de consultas recomendado, um contraste drástico com os 88,7% registrados entre mulheres brancas com 12 anos ou mais de estudo.

O estudo revela que mães de povos originários sofrem mais exclusão do que mulheres pretas e pardas. Apenas 51,5% das indígenas concluem o ciclo de cuidados, frente a 84,3% das brancas, 75,7% das pretas e 75,3% das pardas. A taxa de abandono do acompanhamento entre indígenas chega a 46,2 pontos percentuais, um valor três vezes superior ao das mulheres brancas (15,3 pontos percentuais).

Geograficamente, a Região Norte apresenta o menor índice de cumprimento pleno do pré-natal, com 63,3%. Na sequência aparecem o Nordeste (76,1%) e o Centro-Oeste (77%), enquanto o Sudeste (81,5%) e o Sul (85%) detêm os melhores indicadores de cobertura.

O relatório sugere a criação de estratégias específicas para gestantes com menos de 20 anos, já que apenas 67,7% das adolescentes alcançam o atendimento integral, índice inferior aos 82,6% observados na faixa etária acima dos 35 anos.

A análise foi estruturada com base em dados de mais de 2,5 milhões de nascimentos catalogados pelo Ministério da Saúde no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) durante o ano de 2023.

Luiza Eunice, pesquisadora do ICEH/UFPel e responsável pelo trabalho, destaca que o padrão de sete consultas é uma atualização recente. Em 2024, o governo federal implementou a Rede Alyne, iniciativa que busca diminuir a mortalidade materna em 25% até 2027, com foco em reduzir essas mortes pela metade entre mulheres negras.

Eunice, que é doutora em saúde pública, ressalta a importância de combater o racismo institucional e a discriminação no atendimento. Ela também defende programas educativos para jovens que tratem de educação sexual sem preconceitos e ações voltadas a mulheres com menor escolaridade, reforçando a relevância do pré-natal como prioridade de saúde.

A pesquisadora aponta que o sucesso do acompanhamento também depende de questões logísticas, como o acesso a transporte público eficiente e o fortalecimento do laço entre as pacientes e as equipes de saúde.

"O suporte e a busca ativa por essas gestantes são elementos fundamentais para garantir que elas naveguem pelo sistema e retornem para as consultas subsequentes", explicou a especialista.

Evelyn Santos, gerente da Umane, corrobora a necessidade de focar nas populações mais vulneráveis. Para ela, embora a atenção primária tenha evoluído, o setor público precisa de mais empenho para equalizar o acesso.

"Devemos ser capazes de oferecer um pré-natal adequado a todas, independentemente de raça, local de residência ou nível de instrução. O sistema precisa ser proativo com quem mais precisa, em vez de esperar que a paciente busque o serviço por conta própria. Tratar as vulnerabilidades como um chamado urgente é o que gera mudança real", afirmou em declaração à Agência Brasil.

Como funciona o pré-natal

O objetivo central do pré-natal é identificar precocemente patologias e condições que possam comprometer a saúde, permitindo intervenções rápidas e mitigando riscos no parto. O acompanhamento é vital para a mãe e o bebê, sendo recomendada também a participação do pai para orientações sobre cuidados compartilhados.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) enfatiza que o período serve para orientar sobre a amamentação, que deve ser a única fonte nutricional da criança até os seis meses. Após essa fase, a introdução de alimentos saudáveis deve ser feita, mantendo o leite materno como base até os dois anos ou mais.

O leite materno é superior às fórmulas comerciais por conter todos os nutrientes necessários, prevenir infecções e fortalecer as defesas do bebê, além de estreitar o vínculo afetivo. Para a mulher, amamentar auxilia na recuperação pós-parto e reduz as chances de desenvolver câncer.

O cronograma de consultas deve ser mensal até a 28ª semana; quinzenal entre a 28ª e a 36ª semana; e semanal na reta final da gravidez.

Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), os exames de rotina incluem hemograma, tipagem sanguínea, glicemia, testes para HIV, sífilis, hepatite B, toxoplasmose e exames de urina.

Dependendo da avaliação clínica, podem ser solicitados ainda ultrassonografia obstétrica para datar a gestação, preventivo do colo do útero, análise de secreção vaginal e exames de fezes.

FONTE/CRÉDITOS: Com informações da Agência Brasil