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No Dia Mundial sem Tabaco, o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, diretor executivo da Fundação do Câncer, acende um alerta crucial sobre o crescente consumo de cigarros eletrônicos, ou vapes, entre os jovens no Brasil. Novas tecnologias de disfarce estão impulsionando essa tendência, o que projeta um aumento nos casos de câncer no país.
A preocupação da Fundação do Câncer ressoa com o tema da campanha global da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Dia Mundial sem Tabaco, celebrado em 31 de maio: “Desmascarando o apelo, combatendo a dependência de nicotina e tabaco”.
Embora a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantenha a proibição da comercialização de cigarros eletrônicos no Brasil desde 2009, o uso desses dispositivos tem apresentado uma expansão acelerada. A aquisição desses produtos é facilitada por plataformas online, redes sociais e o mercado informal.
A urgência de combater esses itens é sublinhada por dados recentes da Receita Federal. Nos primeiros meses do ano, foram apreendidas 238.801 unidades de cigarros eletrônicos no território nacional, o que representa uma média superior a 4 mil dispositivos confiscados diariamente.
Dispositivos disfarçados
Muitos desses dispositivos carecem de odor perceptível ou utilizam aromatizantes, enquanto outros emitem apenas vapor, passando despercebidos. Essa discrição facilita o vício precoce, contribuindo para a formação de uma nova leva de indivíduos dependentes de nicotina.
Graças aos seus disfarces, os vapes deixam de se assemelhar a cigarros eletrônicos e, à primeira vista, perdem a aparência de perigo. Eles assumem novas formas e funcionalidades, sendo incorporados a acessórios e ao dia a dia de maneira quase imperceptível.
Entre os formatos mais notáveis, destacam-se os *vaporizer hoodies*: moletons que vêm com vaporizadores integrados ao tecido. O bocal desses dispositivos é camuflado na ponta do cordão do capuz, possibilitando a inalação de nicotina de maneira completamente discreta pelo usuário.
“De forma totalmente articulada, e eticamente questionável, chegam a criar casacos com bocais ocultos para o consumo”, critica o Dr. Maltoni.
Tais camuflagens permitem que jovens utilizem vapes em locais como o metrô ou a escola, sem despertar a atenção de terceiros. “Tudo com o objetivo de viciar o jovem”, acrescenta o diretor.
Luiz Augusto Maltoni enfatiza que a proliferação desses dispositivos camuflados ameaça décadas de progresso nas políticas de controle do tabaco no Brasil. O país, que reduziu significativamente a prevalência de fumantes e é um modelo global, vê seus avanços em risco.
“O que observamos agora é um perigo concreto de retrocesso, potencializado pela tecnologia e profundamente integrado ao dia a dia da juventude”, alerta Maltoni.
Campanha
Em alusão ao Dia Mundial sem Tabaco, a Fundação do Câncer intensificou seu Movimento Vape Off, expandindo sua atuação com o lançamento da campanha “Spoiler: ele não te ama”. Esta iniciativa consiste em um filme, estruturado como reportagem, onde três jovens, de forma anônima, compartilham experiências sobre um relacionamento abusivo que resultou em seu adoecimento.
O propósito é alertar a juventude sobre a abordagem enganosa da indústria na promoção desses cigarros, evidenciando o real prejuízo que tais dispositivos causam à saúde.
“A campanha aconselha que aqueles que nunca experimentaram não o façam, para evitar o vício, e que os que já utilizam busquem a cessação”, destaca Maltoni.
Conforme a Fundação do Câncer, os recentes dispositivos eletrônicos integram tecnologia e interatividade, apresentando telas sensíveis ao toque, jogos, recursos musicais e sistemas de mensagens. Essa integração alinha-se perfeitamente aos hábitos contemporâneos de uso de celulares, tablets e redes sociais.
Certos modelos operam com mecanismos que “reagem” à interrupção do uso, emitindo alertas sonoros e estabelecendo um ciclo de estímulo constante. Maltoni interpreta esse fenômeno como uma fusão entre a dependência química e a dependência digital.
“O vape transcende a função de mero dispositivo, tornando-se um acessório interativo plenamente integrado à rotina dos usuários”, adverte o especialista.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024 apontam um crescimento alarmante na experimentação de cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos. A taxa saltou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024, indicando que o número de jovens nessa faixa etária que já utilizaram ou utilizam esses dispositivos quase dobrou. “Isso é alarmante”, frisa o cirurgião oncológico.
Consequências
Milena Maciel de Carvalho, consultora da Fundação do Câncer na área de tabagismo, ressalta que a questão dos cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos vai muito além de um mero comportamento ou escolha individual.
“A exposição à nicotina durante a adolescência pode comprometer o desenvolvimento cerebral, afetando particularmente as regiões ligadas à atenção, aprendizagem, humor e controle de impulsos”, explica Milena. “Além disso, eleva a vulnerabilidade à dependência de nicotina na vida adulta.”
“Esses dispositivos também expõem os usuários a substâncias tóxicas, como partículas ultrafinas, compostos orgânicos voláteis e metais pesados”, complementa. “Há ainda uma associação clara com riscos respiratórios e cardiovasculares.”
Medidas
O diretor executivo da Fundação do Câncer defende a implementação de medidas no Brasil para conter a produção e comercialização de vapes. Ele cita o exemplo da Inglaterra, um país historicamente liberal e berço de grande desenvolvimento da indústria do tabaco.
“Contudo, diante da catástrofe provocada pela indústria do tabaco e pelos cigarros eletrônicos, especialmente os problemas pulmonares em jovens, a Inglaterra decidiu proibir a venda de qualquer produto de tabaco para indivíduos nascidos após 1º de janeiro de 2009”, detalha Maltoni.
Adicionalmente, o Reino Unido expandiu suas restrições à publicidade, promoção, apresentação e atratividade dos vapes direcionados a crianças e adolescentes. “Acredito que devemos seguir nessa direção”, conclui Maltoni.