Há cinco anos, o Brasil começava a vislumbrar o fim de um período sombrio. Em 17 de janeiro de 2021, logo após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) conceder autorização para uso emergencial de dois imunizantes no país, a enfermeira paulista Mônica Calazans se tornou a primeira pessoa no Brasil a ser vacinada contra a covid-19.

Mônica foi escolhida para este marco histórico por ter participado dos ensaios clínicos da vacina Coronavac, realizados no final de 2020 para atestar a segurança e eficácia do imunizante. Naquela época, ela atuava no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, um hospital especializado em doenças infecciosas e referência para a pandemia, que prestou atendimento a mais de 40 mil pacientes durante a crise sanitária.

A enfermeira relata que estava de plantão naquele domingo quando sua supervisora a informou que deveria comparecer ao local da cerimônia, onde autoridades aguardavam a decisão da Anvisa para iniciar a campanha de vacinação. Ao descobrir que seria a primeira a receber o imunizante, ela não conseguiu conter a emoção:

Leia Também:

"Eu chorava muito! De verdade! Porque a gente estava passando por um momento traumatizante, e o meu irmão estava com covid na época. E eu também chorei de emoção, de alegria, porque a ciência estava dando um passo importante para acabar com aquela tragédia que estava assolando o mundo."

"Na hora que eu recebi a vacina, eu trouxe esperança para as pessoas. O meu punho cerrado era uma mensagem de esperança e de vitória. De que nós iríamos vencer essa fase tão terrível."

A vacinação no restante do território nacional teve início no dia seguinte, 18 de janeiro, após a distribuição de um lote inicial de 6 milhões de doses produzidas na China e importadas pelo Instituto Butantan, que posteriormente passou a processar o imunizante no Brasil, utilizando o ingrediente farmacêutico ativo enviado pela empresa Sinovac.

Poucos dias depois, em 23 de janeiro, a campanha foi reforçada com as primeiras 2 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca, inicialmente importadas da Índia pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que gradualmente incorporou a tecnologia para produzir o imunizante em solo nacional.

A estratégia de imunização priorizou os grupos mais vulneráveis, começando pelos profissionais de saúde da linha de frente, idosos e pessoas com deficiência residentes em instituições, além dos povos indígenas. Neste período, o Brasil enfrentava o ápice da variante Gama do coronavírus, que se mostrou mais agressiva e letal que as cepas anteriores.

Devido à oferta limitada de doses, a imunização avançou de forma gradual até alcançar outros segmentos da população também considerados de alto risco, como os idosos em geral. No Rio de Janeiro, por exemplo, indivíduos com idades entre 60 e 70 anos só receberam o imunizante ao longo dos meses de março e abril de 2021.

Apesar da lentidão inicial, os efeitos positivos da vacinação logo se tornaram evidentes. Dados do Observatório Covid-19 Brasil indicam que, já a partir de abril, as internações e óbitos entre a população idosa começaram a registrar uma queda acentuada.

Pesquisadores estimam que, somente nos sete primeiros meses da campanha, 165 mil hospitalizações e 58 mil mortes entre idosos foram evitadas.

Nos meses subsequentes, tanto o Butantan quanto a Fiocruz intensificaram a finalização e o envase das vacinas no Brasil, o que permitiu um aumento significativo na disponibilidade de doses, somado à chegada de imunizantes adquiridos de laboratórios privados.

Em um ano, foram aplicadas 339 milhões de doses, alcançando 84% da população brasileira. Especialistas calculam que essa cobertura preveniu 74% dos casos graves e 82% das mortes projetadas no Brasil, o que se traduz em mais de 300 mil vidas salvas.

Atrasos na campanha de vacinação

Contudo, o mesmo estudo do Observatório Covid-19 Brasil que quantificou as vidas preservadas pela vacina também apontou que "um contingente adicional de 104.000 hospitalizações poderia ter sido evitado se a vacinação tivesse começado mais cedo" e "outras 47 mil vidas poderiam ter sido salvas caso o governo brasileiro tivesse iniciado o programa de vacinação anteriormente", apenas entre os idosos.

Paola Falceta, vice-presidente da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico), acredita que sua mãe, falecida em janeiro de 2021, está incluída nessas estatísticas. Para ela, é inegável que houve um atraso no início da vacinação no Brasil, resultado da negligência da administração federal da época.

"A gente não poderia salvar todo mundo, obviamente, até porque a vacina depende da vontade própria da pessoa e existiria ainda aquele grupo que não tomaria a vacina."

"Mas a maioria das pessoas queria acesso à vacina, e muitos dos que morreram foram as pessoas que poderiam ter tomado a vacina antes e não conseguiram. E essa falta foi imposta pela própria gestão, que decidiu não comprar, não negociar todos os tipos de vacina existentes."

A análise de Paola é corroborada por uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais. Se a campanha de vacinação no Brasil tivesse sido antecipada em 40 dias, coincidindo com a data de início no Reino Unido, com um maior número de doses e aliada a medidas de isolamento e proteção, o país poderia ter evitado 400 mil mortes, concluíram os pesquisadores. Esse número representa mais da metade das aproximadamente 700 mil mortes causadas pela doença no território nacional.

Por trás desses números, residem histórias como as de Paola e de Ana Lucia Lopes, que perdeu seu companheiro em maio de 2021.

“Um mês depois que o Cláudio faleceu, eu fui tomar vacina. Nós tínhamos a mesma idade, então, ele iria tomar no mesmo momento. E é muito revoltante pensar isso, que ele não teve essa oportunidade. Imagina quanta gente poderia ter tomado a vacina, e tido a chance de sobreviver."

A CPI da Covid-19, instaurada em 2021, também determinou que o governo federal provocou uma "escassez" de doses de vacina, fator crucial para o aumento de casos e óbitos, e para a proliferação de novas variantes. Uma das evidências consideradas foram as propostas de venda apresentadas pela farmacêutica Pfizer em agosto de 2020, que oferecia 1,5 milhão de doses para entrega ainda no primeiro ano da pandemia. O governo brasileiro, no entanto, sequer respondeu.

"A aquisição de imunizantes deveria ter figurado como a principal providência no processo de prevenção à disseminação do novo coronavírus e, consequentemente, de proteção à saúde das pessoas, mas, infelizmente, essa medida foi negligenciada. Não obstante, as tratativas e a conclusão das negociações do governo federal sofreram injustificável e intencional atraso, que impactou diretamente na compra das vacinas e no cronograma de imunização da população brasileira”, afirma o relatório final da CPI.

A comissão também recomendou o indiciamento de 68 indivíduos, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro e os ex-ministros da Saúde Eduardo Pazuello e Marcelo Queiroga. O pedido, entretanto, foi arquivado a pedido do então procurador-geral da República, Augusto Aras, em julho de 2022.

No ano passado, contudo, o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino determinou a abertura de um inquérito na Polícia Federal para investigar os fatos denunciados pela CPI.

FONTE/CRÉDITOS: Com informações da Agência Brasil