Uma pesquisa inédita, denominada Mapa Autismo Brasil (MAB), que traça o primeiro perfil sociodemográfico nacional de pessoas autistas, divulgada nesta quinta-feira (9), evidenciou as barreiras significativas enfrentadas no acesso ao diagnóstico e a tratamentos para o Transtorno do Espectro Autista (TEA) no país.

A iniciativa, idealizada pelo Instituto Autismos, realizou entrevistas com autistas e seus responsáveis em todas as regiões do Brasil com o propósito de compreender o perfil do autista brasileiro e a disponibilidade de serviços.

O levantamento abrangeu 23.632 entrevistas online conduzidas entre 29 de março e 20 de julho de 2025. A amostra incluiu 16.807 responsáveis por autistas, 4.604 adultos autistas e 2.221 indivíduos que se identificaram tanto como autistas quanto como responsáveis.

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Os resultados indicam que, apesar de aproximadamente 25% da população brasileira possuir planos de saúde, apenas 20,4% dos participantes da pesquisa relataram ter obtido o diagnóstico de TEA por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

A pesquisa também aponta que somente 15,5% dos entrevistados recebem terapias através da rede pública. Em contrapartida, mais de 60% dos participantes recorrem a planos de saúde ou arcam com os custos particulares para acessar esses serviços essenciais.

O Instituto Autismos avalia que a complexidade do problema é ainda maior.

“Os dados do Mapa Autismo Brasil também demonstram que 56,5% dos entrevistados, considerando tanto usuários do SUS quanto da rede privada, informaram que a pessoa autista em questão (seja o próprio respondente ou alguém sob sua responsabilidade) realiza, no máximo, duas horas semanais de terapia. Este número contrasta com as recomendações internacionais, que preconizam terapias multidisciplinares com uma carga horária semanal elevada.”

Análise do cenário

Em maio de 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou informações inéditas do Censo Demográfico 2022, que identificou 2,4 milhões de brasileiros com TEA, representando 1,2% da população nacional.

“Ao contrário do Censo, o Mapa Autismo Brasil foca na análise socioeconômica e no acesso a serviços para autistas e seus cuidadores, oferecendo uma avaliação detalhada do panorama atual e destacando a necessidade de aprimoramento das políticas públicas”, ressaltou o Instituto Autismos.

Perfil do autista brasileiro

As 23.632 entrevistas coletadas permitiram a construção do seguinte perfil do autista no Brasil:

  • Raça/cor: 60,8% brancos; 32% pardos; 5,2% pretos; 1,1% amarelos; e 0,25% indígenas.
  • Gênero: 65,3% homens e 34,2% mulheres.
  • Faixa etária: 72,1% com até 17 anos, e 27,9% entre 18 e 76 anos.
  • Renda familiar: 28,6% com renda de até R$ 2.862; 37,9% entre R$ 2.862 e R$ 9.540; e 20,33% acima de R$ 9.540.
  • Nível de suporte: 53,7% Nível 1 (menor necessidade de auxílio); 33,7% Nível 2; e 12,6% Nível 3 (maior necessidade de suporte diário).
  • Comorbidades: 51,5% Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH); 41,1% Transtorno de Ansiedade; 27,9% Transtornos do Sono; 23,2% Distúrbios Gastrointestinais; 19,3% Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem; 19,1% Altas Habilidades/Superdotação; 17,5% Transtorno Depressivo; 16,4% Deficiência Intelectual; e 12,1% Transtornos Específicos da Aprendizagem.
  • Comunicação: 55,5% falam frases completas e longas; 29,5% apresentam ecolalias (repetição de palavras/frases); 28,1% falam poucas palavras/frases; 7,65% não falam e não utilizam comunicação aumentativa e alternativa (CAA) ou escrita; 4,15% falam pouco e usam CAA; 3,51% não falam e utilizam CAA; e 0,59% usam Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Entre os respondentes que são responsáveis por autistas, 96% são pais ou mães, sendo 92,4% mães.

Em relação aos cuidadores, 55,2% possuem ensino superior completo ou pós-graduação. Contudo, 30,47% declararam não ter renda ou estarem desempregados. Uma parcela significativa está inserida no mercado formal, com destaque para servidores públicos (21,9%) e trabalhadores sob regime CLT (16%), além de outras modalidades informais e autônomas.

“A alta porcentagem de cuidadores fora do mercado de trabalho sugere que as responsabilidades de cuidado impactam diretamente a trajetória profissional, aumentando a vulnerabilidade econômica e a dependência de políticas de assistência social”, avaliou o Instituto Autismos.

Do total de entrevistados, 76,6% relataram utilizar algum tipo de benefício. A maioria desses benefícios está relacionada à identificação e acesso: 36,7% utilizam o cartão de identificação da pessoa com TEA, 30% se beneficiam do atendimento preferencial em serviços e 20,7% utilizam vagas de estacionamento reservadas para pessoas com deficiência.

Apenas 16,6% dos entrevistados informaram ter acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC). Outros 12,9% utilizam o passe livre para pessoas com deficiência e 7,7% obtiveram isenção do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).

Desafios no diagnóstico

O Mapa Autismo Brasil evidenciou as dificuldades no acesso ao diagnóstico de TEA pelo SUS, bem como os atrasos gerais no processo diagnóstico, o que compromete a eficácia das intervenções precoces.

Os dados revelam que a maioria dos diagnósticos ocorre em crianças de até 4 anos (51,7%), seguida pelas faixas etárias de 5 a 9 anos (17,1%) e de 10 a 14 anos (6,1%).

“A discrepância entre a mediana (4 anos) e a média (11 anos) indica que, embora a maioria dos diagnósticos seja realizada precocemente, um número considerável de casos é diagnosticado em idades mais avançadas, elevando a média geral da amostra”, alertou o Instituto Autismos.

A pesquisa identificou que os primeiros sinais de TEA são notados predominantemente por familiares próximos (55,9%) ou pela própria pessoa autista (11,4%). Médicos e professores identificaram os sinais iniciais em apenas 7,3% e 9,4% dos casos, respectivamente.

O estudo também apontou que neurologistas ou neuropediatras foram os responsáveis pelo diagnóstico em 67% das situações, seguidos por psiquiatras (22,9%). Para o Instituto Autismos, isso reforça a necessidade de acesso a esses especialistas, que nem sempre estão disponíveis nas redes pública e privada em todas as localidades.

Os dados indicam que 55,2% dos diagnósticos foram realizados na rede particular de saúde, 23% por meio de planos de saúde e apenas 20,4% pelo SUS. As proporções variam regionalmente, com uma dependência maior do SUS para diagnósticos nas regiões Norte e Nordeste do país.

Acesso a terapias

Entre as terapias mais comuns, destacam-se a psicoterapia (52,2%), terapia ocupacional (39,4%), fonoaudiologia (38,9%), psicopedagogia (30,8%) e terapia ABA (29,8%).

Em menor frequência, foram relatadas fisioterapia (12,5%), nutrição (10,2%), musicoterapia (11,0%), psicomotricidade (15,0%), equoterapia (4,3%) e estimulação precoce (3,7%).

Observou-se também que 16,4% dos participantes não realizam nenhum tipo de terapia.

Quanto à rede utilizada para as terapias, 15,5% mencionaram o SUS, enquanto 35,3% utilizam plano de saúde, 28,5% recorrem à rede particular e 7,93% utilizam serviços de associações, como as APAEs.

Entre os usuários do SUS, apenas 33,8% realizam terapia ocupacional, em comparação com 64,5% dos usuários de planos de saúde. Usuários do SUS também relataram acesso significativamente menor a sessões de psicoterapia, fonoaudiologia, terapia comportamental ABA, psicomotricidade e musicoterapia, quando comparado ao acesso via plano de saúde.

Os resultados do MAB indicam que os gastos mensais com terapias concentram-se nas faixas de R$ 501 a R$ 1 mil (24,8%), R$ 1.001 a R$ 3 mil (22,2%) e R$ 101 a R$ 500 (20,9%). Segundo os dados, 5,7% dos entrevistados têm um investimento mensal de até R$ 100.

Entre os respondentes, 4,3% relataram despesas superiores a R$ 5 mil mensais e 4,2% não souberam informar o valor.

Considerando tanto os usuários da rede pública quanto da privada, a carga horária semanal de terapias informada é considerada baixa pelo Instituto Autismos. A maioria realiza uma hora (25,90%), nenhuma (18,13%) ou duas horas (12,44%) semanais de terapia, enquanto apenas 1,54% alcança 40 horas ou mais.

“A concentração em poucas horas semanais sugere limitações de acesso, custo e disponibilidade de serviços, indicando que grande parte das pessoas autistas recebe suporte terapêutico aquém do ideal para necessidades mais intensivas”, destacou o instituto.

Educação e vida adulta

Os resultados da pesquisa também apresentam um panorama sobre o acesso à educação. Do total, 83,7% frequentam alguma instituição de ensino, sendo 52,26% em escolas públicas e 31% em estabelecimentos particulares. Cerca de 16% não frequentam nenhuma instituição.

No que diz respeito a recursos de acessibilidade e inclusão, 39,9% dos estudantes não recebem qualquer tipo de apoio. Entre os apoios mais comuns estão educador social, monitor ou tutor (23,8%), acompanhamento especializado (como mediador escolar ou acompanhante terapêutico) (18,8%), adaptações pedagógicas (18,8%) e sala de recursos (18,1%).

“Os dados indicam que a presença na escola não garante, por si só, a inclusão efetiva. A alta proporção de estudantes sem apoios básicos sugere fragilidade na implementação das políticas de educação inclusiva e desigualdade no acesso aos recursos educacionais previstos em lei”, avaliou o Instituto Autismos.

Na faixa etária de 18 a 76 anos, 29,9% dos autistas entrevistados relataram estar desempregados ou sem renda, o que, para o instituto, aponta para um desafio estrutural de inclusão no mercado de trabalho.

Entre os que declararam estar empregados, 21,1% atuam como servidores públicos, 20% possuem carteira assinada, 8,1% trabalham como autônomos, 6,7% atuam como pessoa jurídica e 5,9% exercem atividades sem carteira assinada.

Adicionalmente, 4,1% dependem de auxílio governamental, 3,5% recebem aposentadoria ou pensão e 0,35% integram a carreira militar.

FONTE/CRÉDITOS: Com informações da Agência Brasil