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No Brasil, diversas organizações e órgãos governamentais, como a Capes e o movimento Parents in Science, têm intensificado ações para combater a exclusão de mulheres com filhos no ambiente acadêmico. O objetivo é garantir que a maternidade não seja um empecilho para a produtividade e a evolução na ciência, especialmente diante de dados que mostram que pesquisadoras perdem espaço em cargos de destaque e no acesso a bolsas de fomento.
Embora as mulheres representem a maioria das novas doutoras há duas décadas, elas ainda ocupam poucos cargos de liderança na graduação e pós-graduação. Atualmente, apenas um terço das bolsas de produtividade é destinado ao público feminino, evidenciando o abismo de gênero na academia.
O fenômeno conhecido como "efeito tesoura" descreve como as mulheres são gradualmente afastadas da carreira conforme avançam nos degraus acadêmicos. Segundo a professora Fernanda Staniscuaski, da UFRGS, o debate sobre o peso específico da maternidade nesse processo é recente, mas fundamental.
Staniscuaski fundou o Parents in Science em 2016 após sentir na pele a desaceleração profissional ao se tornar mãe. O grupo hoje conta com quase cem pesquisadores e foca em gerar dados sobre a parentalidade docente, preenchendo um vácuo de estatísticas oficiais no país.
Desigualdade nos indicadores
Dados do grupo revelam que o descredenciamento de mães em programas de pós-graduação ocorre majoritariamente por queda na produção (66,1%). Em contraste, entre os pais, a saída costuma ser voluntária, refletindo como o cuidado doméstico ainda recai sobre as mulheres.
Além do gênero, recortes de raça e deficiência agravam a exclusão. Mulheres pretas, pardas e indígenas enfrentam barreiras ainda mais severas, exigindo políticas que considerem a interseccionalidade no ambiente científico.
Desafios desde a graduação
A assistente social Cristiane Derne relata que a falta de infraestrutura e auxílios financeiros adequados quase a levou a desistir da universidade. Na UFRJ, o apoio de coletivos maternos foi crucial para que ela concluísse o curso e seguisse para o mestrado na PUC/Rio.
O Atlas da Permanência Materna aponta que, embora a maioria das universidades ofereça auxílio financeiro, o valor médio é baixo e o benefício raramente se estende à pós-graduação. Apenas oito instituições brasileiras possuem espaços adequados para o cuidado de crianças, as chamadas cuidotecas.
Novos marcos legais e editais
No Rio de Janeiro, o recém-aprovado Marco Legal Mães na Ciência prevê que o trabalho de cuidado seja pontuado positivamente em seleções de bolsas. Para a doutoranda Liziê Calmon, a maternidade oferece uma perspectiva única que enriquece a qualidade das pesquisas.
A Faperj também inovou com editais exclusivos para mães cientistas. Segundo Leticia de Oliveira, da comissão de equidade da fundação, a medida é compensatória e necessária para corrigir distorções históricas no conceito de mérito acadêmico.
Nacionalmente, a Capes lançou o programa Aurora, que financia pesquisadores de pós-doutorado para auxiliar professoras gestantes ou com filhos pequenos. A iniciativa visa manter a continuidade das pesquisas durante as licenças, beneficiando também os alunos orientados.
Para Denise Pires de Carvalho, presidente da Capes, promover a diversidade é uma questão de excelência. Uma ciência feita por pessoas com vivências distintas amplia a capacidade de interpretação de resultados e gera um conhecimento mais robusto para a sociedade.