No mês que marca o Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher, órgãos oficiais e entidades civis registraram um avanço preocupante da violência política de gênero no Brasil durante as eleições de 2026. Processos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vinculados ao tema saltaram de 15 para 177 em quatro anos, refletindo a escalada de agressões contra candidatas no país.

A data comemorativa relembra a mobilização histórica ocorrida em 10 de outubro de 1980 nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo. Naquela ocasião, manifestantes se reuniram para repudiar o avanço dos crimes motivados pelo machismo em todo o território nacional.

O cenário atual das campanhas eleitorais expõe a gravidade do problema. Um relatório das ONGs Terra de Direitos e Justiça Global contabilizou 134 episódios de hostilidade até o primeiro turno das eleições, o que equivale a um caso registrado a cada nove horas. Do total de vítimas, mais de 52% eram mulheres.

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Quando analisados apenas os ataques direcionados a pessoas candidatas, a proporção de mulheres atingidas sobe para 58,8%. O dado demonstra uma desproporção alarmante, já que as candidatas representam apenas cerca de um terço da totalidade de postulantes nas urnas.

Entre janeiro e agosto de 2026, a Central de Atendimento à Mulher (Disque 180) somou 1.564 denúncias relativas a agressões políticas. Mulheres negras e pardas constituem o grupo mais atingido, somando mais de 53% das notificações registradas pelo canal governamental, seguidas por mulheres brancas (37,7%).

Pouco antes da votação, entidades da sociedade civil entregaram um dossiê ao TSE detalhando agressões graves sofridas por candidatas. Os relatórios incluem desde ofensas verbais e intimidação física até ameaças explícitas de estupro e morte.

Ameaças contra parlamentares eleitas

Um exemplo recente desse contexto envolve a deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG). Aos 21 anos, a parlamentar mais jovem do país acionou a Polícia Civil após receber intimidações de cunho sexual, ameaças de morte e ter seus dados pessoais expostos na internet.

Apesar de ter sido a mulher mais votada da história mineira para a Câmara dos Deputados, com mais de 524 mil votos, a deputada precisou recorrer a segurança privada armada contratada por sua legenda para garantir a integridade física durante a campanha.

Diagnóstico do Ministério das Mulheres

Segundo Sandra Kennedy, secretária do Ministério das Mulheres, esses ataques estão diretamente associados à expansão da misoginia e da cultura patriarcal. Para a gestora, a intenção primária dessas agressões cotidianas é desestimular a atuação feminina na esfera pública.

Casos emblemáticos de hostilidade

A história recente do país acumula episódios nos quais a intimidação a representantes políticas ultrapassou o discurso de ódio e gerou riscos reais à vida das parlamentares:

  • O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, ocorrido em março de 2018 no Rio de Janeiro.
  • A importunação sexual sofrida pela ex-deputada estadual Isa Penna no plenário da Alesp em 2020.
  • As ofensas verbais dirigidas à deputada Maria do Rosário no Salão Verde da Câmara dos Deputados.
  • A suspensão temporária da escolta da deputada federal Talíria Petrone mesmo sob ameaças de milícias.
  • As interrupções machistas e ataques verbais contra senadoras durante as sessões da CPI da Covid em 2021.

Canais para denúncias

Vítimas de violência política ou testemunhas dessas infrações podem acionar órgãos oficiais para formalizar denúncias e buscar proteção jurídica:

  • Ligue 180: Central gratuita com suporte via telefone, WhatsApp ((61) 9610-0180) e e-mail.
  • Ouvidorias: Canais dedicados do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e do CNJ.
  • Justiça Eleitoral: Procuradoria-Geral Eleitoral e Sala de Atendimento ao Cidadão do MPF.
  • Polícia Federal: Registro presencial em delegacias ou pelo portal Comunica PF.
  • Assistência Jurídica: Grupo de Trabalho Mulheres da Defensoria Pública da União.
  • Emergências: Acionamento imediato da Polícia Militar pelo número 190.
FONTE/CRÉDITOS: Com informações da Agência Brasil