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Em 1976, um informe do diretório acadêmico da Escola de Medicina da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) denunciava que diversos alunos sofriam abusos de direitos humanos dentro da instituição. O documento também revelava que agentes do regime militar vigiavam diariamente o acesso secundário da faculdade, detalhando as cores e as placas dos automóveis usados pelos oficiais.
O registro foi exibido nesta terça-feira (31) no Arquivo Nacional, evidenciando como a documentação histórica é vital para a produção de conhecimento, a atuação política e a busca por pessoas desaparecidas.
"É um material fascinante, pois é raro encontrar arquivos que descrevam violações com tamanha clareza e riqueza de detalhes. Habitualmente, os registros são produzidos sob a perspectiva do Estado", comentou Isabela Costa, diretora do Arquivo Central da Unirio.
Até quarta-feira (1º), o Arquivo Nacional reúne acadêmicos, arquivistas e ativistas na Semana Ditadura, Arquivos e Memória. O evento ocorre 62 anos após o golpe militar que depôs João Goulart, dando início a um período de 21 anos de exceção no Brasil.
A diretora do Arquivo Nacional, Mônica Lima, ressaltou a importância de proteger e conservar o patrimônio documental para manter viva a lembrança dos anos de chumbo no país.
"Os registros guardados pelo Arquivo Nacional e abertos ao público são fundamentais para a investigação histórica e para o direito à memória e à verdade, fortalecendo a cultura dos direitos humanos", afirmou Mônica.
"Esses acervos possibilitam que a sociedade brasileira compreenda melhor sua trajetória e reafirme os valores democráticos que devem nortear o presente e o futuro", acrescentou a diretora.
Cecília Coimbra, historiadora e fundadora do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, relembrou o papel decisivo dos movimentos sociais e das famílias de desaparecidos na localização de informações públicas. Ex-militante do PCB, ela foi detida e torturada durante o regime.
A partir dos anos 1980, essas organizações foram pioneiras no acesso e na consulta aos arquivos do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), o órgão de polícia política da ditadura.
"Conseguimos localizar depoimentos de desaparecidos que estavam sob custódia do Dops. Percebemos que outros documentos foram destruídos, mas o controle nunca foi absoluto. Encontramos materiais valiosos que ajudaram companheiros de outros estados a elaborar dossiês sobre mortos e desaparecidos", relatou Cecília.
"Mas a luta não parou. Apenas os arquivos do Dops foram abertos. Ainda faltam os registros dos centros de inteligência do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, além do DOI-Codi, da Polícia Militar e dos Bombeiros, pois todos participaram da estrutura repressiva", pontuou.
O encontro também teve a presença de Maria Fabiana Almeida, integrante do movimento Madres de Plaza de Mayo e irmã do desaparecido político Alejandro Almeida. No último dia 24 de março, o golpe militar de 1976 na Argentina completou 50 anos.
O irmão de Maria Fabiana tinha 20 anos quando sumiu. Ele saiu para comprar cigarros antes do jantar e nunca mais retornou, tornando-se um dos 30 mil desaparecidos pela repressão argentina.
"A trajetória dessas mães é trágica e terrível. No início, acreditavam que seus filhos estariam em prisões ou hospitais, sem imaginar que jamais voltariam a vê-los", disse Maria Fabiana.
A ativista enfatizou que os fatos atuais reforçam a necessidade de a sociedade não esquecer as violações cometidas e manter o espírito de resistência de movimentos como o das Madres de Plaza de Mayo.
"Na Argentina, temos convivido com o governo de Javier Milei, que nega abertamente as pautas de direitos humanos e as conquistas femininas, além das leis de diversidade e identidade de gênero", criticou Maria.
"Contudo, seguimos inspiradas pela memória e pela luta dessas mães, que são um símbolo mundial da força feminina na ditadura. Não podemos apagar o passado nem temer a verdade, sob o risco de que aqueles tempos retornem. É preciso paciência, pois a justiça chegará", concluiu.