A crescente onda de feminicídios no Brasil dominou os protestos que celebraram o Dia Internacional da Mulher em Brasília. Centenas de participantes, portando cartazes com a frase "Parem de nos matar", levantaram a voz contra a violência de gênero no Distrito Federal (DF) neste domingo (8).

A concentração do evento aconteceu nas imediações da Torre de TV, na região central de Brasília, e reuniu grupos musicais, agremiações políticas, entidades sindicais e diversos coletivos feministas. Adicionalmente, o movimento reivindicou o término da jornada de trabalho 6x1, que prevê seis dias de atividade para um de folga, vista como particularmente onerosa para as mulheres.

O governo do Distrito Federal, sob a gestão de Ibaneis Rocha, também foi criticado durante o protesto. Os manifestantes recordaram a tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB), a instituição financeira estatal do DF.

Leia Também:

A denúncia do imperialismo representou outra pauta relevante, com foco nas intervenções dos Estados Unidos (EUA) em países como Irã, Cuba e Venezuela. A atuação de Israel na Palestina igualmente foi abordada em discursos e exibida em cartazes durante a marcha feminina.

Violência de gênero

A artista plástica Daniela Iguizzi, de 55 anos, exibiu sua obra "Medo", que ilustra um revólver direcionado a uma mulher.

"As mulheres não encontram um momento de tranquilidade. Não há paz em seus lares, nem sossego em seus locais de trabalho. Em qualquer ambiente, estamos sujeitas a assédio e podemos ser vítimas de assassinato. Por essa razão, o título desta obra é 'Medo', um sentimento compartilhado por todas as brasileiras", declarou à Agência Brasil.

Apenas no ano anterior, o Brasil registrou 1.568 mulheres vítimas de feminicídio, representando um aumento de 4,7% em comparação com o período anterior, conforme dados compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Raquel Braga Rodríguez, coordenadora do grupo de maracatu Baque Mulher Brasília, enfatizou que os feminicídios representam uma das maiores angústias para as mulheres brasileiras, e que a manifestação se posiciona veementemente contra essa modalidade de crime.

"O governo instituiu o Pacto Nacional contra o Feminicídio e almejamos profundamente que essa política pública seja efetivamente implementada, gerando resultados concretos na diminuição desses índices", afirmou Raquel.

Em princípios de fevereiro, um acordo foi selado entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, visando à implementação de ações coordenadas de combate à violência de gênero no país.

Com 88 anos recém-completados, a notável militante do movimento de mulheres negras do Distrito Federal, Lydia Garcia, compareceu ao ato, desafiando a ameaça de chuva. Professora de música aposentada e membro do Coletivo Mulheres Negras Baobá, Lydia é mãe de cinco filhos, avó de 11 netos, bisavó de três bisnetos e uma das pioneiras da capital federal.

"Nós, mulheres, especialmente as mulheres negras, estamos demonstrando a este mundo e a este Brasil a nossa potência, nossas batalhas e conquistas por um futuro mais digno, combatendo a violência contra os jovens negros e o feminicídio", declarou.

Distrito Federal

O Governo do Distrito Federal (GDF), chefiado por Ibaneis Rocha e sua vice, Celina Leão, figurou entre os principais focos de crítica na manifestação do Dia da Mulher em Brasília.

Jolúzia Batista, representante da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), expressou descontentamento com a escassez de recursos destinados às políticas públicas de proteção feminina no DF.

"Presenciamos um escândalo financeiro no Brasil, com o banco do GDF [o BRB] sendo negociado de forma questionável, enquanto faltam verbas para as políticas públicas", afirmou à Agência Brasil.

A Polícia Federal (PF) está investigando a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB. O Banco de Brasília avalia a possibilidade de oferecer 12 imóveis públicos do DF como garantia para empréstimos, buscando recompor o caixa da instituição após perdas estimadas em R$ 2,6 bilhões decorrentes da compra de créditos do Master.

A ativista da AMB defendeu, ademais, que a luta feminina deve ir além da denúncia do feminicídio, abrangendo a reivindicação por um orçamento que viabilize políticas públicas capazes de aprimorar a vida de meninas e mulheres.

"É imperativo discutir o orçamento. As emendas parlamentares, em especial as chamadas emendas Pix, desviaram recursos essenciais das políticas públicas. Consequentemente, houve uma deterioração na qualidade dos serviços, na capacitação de profissionais e na eficácia das campanhas educativas", observou.

Avanços da luta das mulheres

Thammy Frisselly, uma das organizadoras do evento, ressaltou o marco de dez anos da Marcha Unificada do 8 de Março em Brasília e as conquistas alcançadas pelo movimento feminino na capital.

"O 8M [8 de março] representa o maior evento político feminista da capital federal. Obtivemos avanços significativos, não apenas na legislação, mas também no incremento do número de delegacias especializadas para mulheres", explicou Thammy.

Segundo a representante da Assembleia Popular pela Vida de Todas as Mulheres, a violência contra a mulher, atualmente, é um tema amplamente discutido na sociedade, fruto da persistente pressão exercida pelos movimentos feministas ao longo dos anos.

"Hoje, podemos afirmar abertamente que um 'psiu' na rua é uma forma de violência, assim como comentários sobre a minha vestimenta. Essa conscientização fundamental é um resultado direto da incansável luta das mulheres", complementou Thammy.

Escala 6x1 e imperialismo

A ativista do DF adicionou que a reivindicação pelo término da escala 6x1 é crucial para a pauta feminina, considerando que as mulheres frequentemente enfrentam jornadas de trabalho duplas ou triplas, conciliando as responsabilidades domésticas, o cuidado com idosos e crianças, além de suas atividades profissionais.

"As mulheres necessitam de tempo para cuidar de sua saúde mental, para momentos de lazer, para se dedicar a outras atividades e para estudar", elucidou Thammy.

FONTE/CRÉDITOS: Com informações da Agência Brasil