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O setor corporativo desempenha uma função essencial na luta contra a violência dirigida a mulheres e meninas, exigindo uma atuação multifacetada que abranja prevenção, intervenção e suporte às vítimas. Essa perspectiva foi apresentada na última terça-feira (31) pelo secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, durante um evento no Rio de Janeiro.
Rosa enfatizou que as empresas precisam ser catalisadoras de mudanças culturais profundas, indispensáveis para erradicar as raízes do elevado índice de feminicídios no território nacional.
Dados alarmantes do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, produzido pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina, indicam que, no país, seis mulheres perdem a vida diariamente. No ano anterior, a nação registrou 2,1 mil vítimas fatais e 4,7 mil tentativas de feminicídios.
Em um encontro com executivos de grandes corporações públicas e privadas, como Petrobras e Banco do Brasil, o secretário-executivo salientou que o combate à violência de gênero não pode se limitar à aplicação de leis penais mais rigorosas após a ocorrência dos crimes. Ele defendeu que a prioridade deve ser a ação preventiva, começando pela garantia de um ambiente de trabalho livre de qualquer forma de violência.
“Das empresas, a expectativa recai sobre a prevenção, a intervenção, o acolhimento e o suporte às vítimas”, declarou Rosa.
Rosa esteve presente no evento “Responsabilidade Empresarial no Enfrentamento ao Feminicídio, à Violência de Gênero e pela Transformação Cultural”, uma iniciativa da Petrobras, do Governo Federal e do Banco do Brasil, sediada no Museu de Arte Moderna do Rio. Na ocasião, o secretário instou as empresas a estenderem essas exigências a toda a sua cadeia de fornecedores, "transpondo suas próprias fronteiras".
O secretário classificou a inação das empresas diante dessa pauta como uma “omissão institucional” e uma falha ética. Ele também criticou veementemente as condutas corporativas que desencorajam denúncias, expõem as vítimas ou falham em punir os agressores.
Conforme sua análise, organizações que não estabelecem canais seguros para denúncias ou que, de alguma forma, penalizam as vítimas, acabam por contribuir para a perpetuação do problema.
“É fundamental, sem dúvida, combater a cultura interna que tolera qualquer manifestação de assédio ou violência”, afirmou.
Além disso, o secretário sugeriu que as mulheres assumam um papel de liderança na formulação de políticas internas, com o respaldo da alta direção. “A transformação cultural só se concretiza quando é sustentada por ações diárias, tangíveis e orgânicas”, ponderou.
Reforçando o engajamento do Ministério da Indústria com a questão, Rosa ressaltou que o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio abrange também o governo e a sociedade civil. Ele defendeu que somente a colaboração mútua será capaz de quebrar o ciclo de violência: “Esta não é uma agenda para o futuro, mas sim uma medida que já deveria ter sido implementada”, finalizou.
Casos e iniciativas
Durante o evento, a empresária Luiza Trajano, fundadora da Magazine Luiza, compartilhou detalhes sobre o Canal Mulher. Este recurso foi desenvolvido para oferecer apoio a colaboradoras que sofrem violência doméstica, uma iniciativa que surgiu após o feminicídio de uma funcionária em 2017, e que hoje disponibiliza assistência psicológica e jurídica.
Ao longo do tempo, a Magazine Luiza chegou a custear o aluguel para que uma funcionária pudesse se mudar de casa. Aprimorando essa estratégia em 2019, o aplicativo móvel da empresa integrou um botão de denúncia que contata o número 180 de forma instantânea.
“Estabelecemos um pacto, capacitando também os homens para reconhecer e intervir nessas circunstâncias, e nossa empresa jamais perderá outra mulher para essa violência”, declarou.
Trajano expressou seu apreço pelo Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio, que adotou uma estratégia focada nos homens. “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirigiu-se aos homens, e, em nossa organização, estamos conversando diretamente com eles: é fundamental que vocês ajam, pois um dia pode ser sua filha, uma sobrinha, uma irmã, e vocês podem não saber. E isso não se restringe a pessoas de classes sociais mais baixas; atinge também secretárias que dominam três idiomas”.
Mensagens em locais estratégicos
Com o crescente número de mulheres integrando o mercado de trabalho, é crucial que elas percebam o comprometimento de seus empregadores com a causa, conforme pontuou Wania Sant’Anna, presidenta do Pacto de Promoção da Equidade Racial.
“O papel das empresas é extraordinário na sensibilização da sociedade sobre a inaceitabilidade da violência contra a mulher”, ressaltou.
“Os dados não são meras coincidências; eles espelham uma cultura de violência contra as mulheres que é histórica e tolerada”, analisou Sant’Anna, destacando a brutalidade e a crueldade dos crimes. “Que tipo de sociedade estamos construindo?”, indagou.
A gestora sugeriu que cada organização adapte suas ações ao seu setor de atuação, mantendo um diálogo constante com seus colaboradores e o público. “Se for um posto de gasolina, divulgue a mensagem nas bombas. Se for uma companhia aérea, personalize seu avião. Aeroportos, trens, metrôs? Comunique-se diretamente com os passageiros”, aconselhou.
Visando auxiliar as empresas, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o Pacto Global. Essa iniciativa oferece diretrizes para que as corporações “empreendam ações concretas rumo às transformações sociais que almejamos”, conforme explicou a diretora Monica Gregori. Em sua palestra no encontro com as empresas, ela sublinhou a necessidade de as organizações priorizarem o combate às violências institucionais internas.
“As corporações podem implementar estratégias de prevenção, desde a conscientização sobre a violência de gênero – visto que o feminicídio representa o estágio mais extremo dessa violência – até o combate ao assédio moral e sexual, que ainda persistem em muitos ambientes empresariais”, pontuou Gregori.
Apoiadora fervorosa da iniciativa, a primeira-dama Rosângela Lula da Silva ressaltou a relevância do setor empresarial e clamou por suporte a propostas que visam criminalizar a misoginia, um tipo de violência da qual ela própria tem sido alvo, especialmente no ambiente das redes sociais.
“Ao tentar compreender a razão dessa escalada da violência, deparamo-nos com um cenário online hostil às mulheres. Nesse espaço digital, que muitas vezes parece carecer de regulamentação, observamos a inaceitável disseminação de conteúdos misóginos, violentos e ilícitos. São materiais que promovem a supremacia masculina e incitam a violência de gênero”, analisou, exemplificando com a troca de mensagens entre a soldado Gisele Alves e o tenente-coronel Geraldo Leite, suspeito de seu assassinato, como um caso de discurso de ódio e misoginia.
A policial militar foi encontrada sem vida, com um ferimento a bala na cabeça, no apartamento do casal, localizado na região central de São Paulo, em 18 de fevereiro. O curso da investigação alterou-se significativamente após a análise de laudos periciais e das mensagens recuperadas do seu aparelho celular.
O papel da mídia na conscientização
A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) marcou presença no evento, representada por seu diretor-presidente, Andre Basbaum, que defendeu a importância da mídia pública no estabelecimento de um diálogo efetivo com a sociedade.
“Isso se reflete na EBC, na TV Brasil, que serve de plataforma para o futebol feminino e para os debates em nosso jornalismo”, exemplificou, referindo-se às iniciativas do conglomerado de mídia, que gere emissoras de rádio, televisão e portais. “Este é um drama de escala nacional, com índices de violência extremamente elevados, e o enfrentamos por meio do debate”, acrescentou.
Antonia Pellegrino, diretora de Conteúdo e Programação da EBC, complementou que as organizações de mídia detêm a responsabilidade de moldar o imaginário social, ou seja, a percepção mental que os indivíduos desenvolvem sobre diversos assuntos. “Nossa programação tem o poder de criar novos imaginários, abrindo vias que podem transformar realidades”, concluiu.