A maioria dos brasileiros que vivem com diabetes — cerca de 70% — reporta um impacto considerável em seu bem-estar emocional, com muitos experimentando ansiedade e isolamento. Diante desse cenário, uma pesquisa recente aponta que pacientes clamam por tecnologias avançadas, como sensores de monitoramento contínuo de glicose (CGM) e inteligência artificial (IA), para aprimorar o tratamento e, consequentemente, sua qualidade de vida, especialmente no manejo da imprevisibilidade da doença.

Essa percepção é corroborada por um levantamento realizado pelo Global Wellness Institute (GWI) em colaboração com a Roche Diagnóstica, que investigou as experiências e opiniões de indivíduos com diabetes sobre a condição e as ferramentas de manejo disponíveis.

Conduzida globalmente em setembro de 2025, a pesquisa abrangeu 4.326 participantes com 16 anos ou mais, vivendo com diabetes. Deste total, 20% eram do Brasil, inseridos em um universo de 22 países participantes.

Leia Também:

Os países incluídos no estudo, além do Brasil, foram Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, Croácia, República Tcheca, Dinamarca, Alemanha, Hong Kong, Índia, Japão, Kuwait, Países Baixos, Polônia, Portugal, Romênia, Arábia Saudita, África do Sul, Espanha, Turquia e Reino Unido.

Especificamente entre os pacientes com diabetes tipo 1, o impacto no bem-estar emocional é ainda mais pronunciado, com 77% relatando sentir-se significativamente afetados pela doença.

Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp

O que é diabetes?

A diabetes é uma condição metabólica caracterizada pela produção insuficiente ou pela má absorção de insulina, um hormônio vital para regular a glicose sanguínea e fornecer energia ao corpo. O descontrole glicêmico pode resultar em diversas complicações sérias, afetando o coração, artérias, olhos, rins e nervos, e em situações extremas, pode ser fatal.

O Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1), por sua vez, é uma doença crônica não transmissível de origem hereditária. Ela se manifesta pela destruição das células pancreáticas responsáveis pela produção e secreção de insulina, levando a uma deficiência na liberação desse hormônio essencial no organismo.

Conforme o Atlas Global do Diabetes 2025, divulgado pela International Diabetes Federation (IDF), o Brasil figura como o 6º país no mundo com o maior número de casos, registrando 16,6 milhões de adultos diagnosticados com a doença.

A demanda por tecnologias e a qualidade de vida

Os resultados do estudo no Brasil evidenciam que a diabetes restringe a vida diária de muitos: 56% dos entrevistados relatam limitações para passar o dia fora de casa, e 46% enfrentam dificuldades em situações corriqueiras, como o trânsito ou reuniões prolongadas. Além disso, 55% não desfrutam de um sono reparador devido às flutuações glicêmicas noturnas.

Apesar dos progressos no tratamento, a maioria dos pacientes expressa insatisfação com o modelo de cuidado vigente. Apenas 35% se sentem plenamente confiantes na gestão de sua condição, o que aponta para desafios persistentes no controle e na previsibilidade da diabetes.

Nesse contexto, aproximadamente 44% dos entrevistados defendem a priorização de tecnologias mais avançadas, capazes de prever alterações nos níveis de glicose, como medida essencial para a prevenção de complicações.

Entre aqueles que utilizam métodos tradicionais, como glicosímetros ou testes de ponta de dedo, 46% acreditam que os sensores de monitoramento contínuo de glicose (CGM) deveriam ser amplamente adotados, em função de sua funcionalidade como alertas preditivos.

A importância da previsibilidade glicêmica

A capacidade de prever futuros níveis de glicose é apontada por 53% dos entrevistados como a principal funcionalidade desejada em tecnologias que incorporam inteligência artificial (IA). Essa demanda é ainda mais acentuada entre os pacientes com diabetes tipo 1, atingindo 68%.

Para 56% dos brasileiros, ter acesso a tendências antecipadas dos níveis de glicose proporcionaria uma sensação maior de controle sobre a doença. Adicionalmente, 48% afirmam que a diminuição de picos e quedas glicêmicas inesperadas elevaria significativamente sua qualidade de vida.

É notável que 95% dos pacientes com diabetes tipo 1 consideram indispensáveis as ferramentas capazes de prever episódios de hipoglicemia e hiperglicemia, reconhecendo o quanto isso simplificaria o manejo de sua condição.

Benefícios do monitoramento contínuo

André Vianna, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), enfatiza que o diagnóstico precoce e o acompanhamento médico regular são cruciais para prevenir as complicações associadas à diabetes.

O endocrinologista ressalta que o emprego de tecnologias pode representar um divisor de águas, especialmente para pacientes com diabetes tipo 1, cuja glicemia apresenta grande variabilidade.

Vianna explica que o monitoramento contínuo da glicose, realizado por meio de sensores já disseminados globalmente, é o cenário ideal para esses pacientes. "Esse sensor capacita o indivíduo a antecipar precocemente as tendências glicêmicas das próximas horas, permitindo uma ação preventiva antes que um evento de alta ou baixa glicose se manifeste", detalha o médico.

O vice-presidente da SBD destaca que uma das vantagens dessas tecnologias é a redução de complicações para os usuários e, consequentemente, a diminuição dos custos para o sistema público de saúde.

"Pacientes que utilizam esses dispositivos tendem a necessitar de menos hospitalizações e visitas a prontos-socorros", afirma Vianna. Ele complementa: "Isso não apenas melhora a saúde individual, mas também otimiza os custos do tratamento, razão pela qual o monitoramento contínuo é uma prática consolidada mundialmente."

Acesso e desafios no mercado brasileiro

No Brasil, enquanto as tecnologias de monitoramento são amplamente acessíveis a indivíduos com maior poder aquisitivo, sua disponibilização em larga escala no Sistema Único de Saúde (SUS) ainda é limitada.

Atualmente, quatro empresas atuam na comercialização desses dispositivos no país. Em contraste, nações desenvolvidas garantem amplo acesso a essas tecnologias para pessoas com diabetes, seja por meio de operadoras de saúde privadas, como nos Estados Unidos, ou gratuitamente por sistemas de saúde públicos, como na França e no Reino Unido.

Para André Vianna, a adoção de sensores e tecnologias baseadas em inteligência artificial (IA) tem o potencial de elevar significativamente a qualidade de vida dos pacientes.

"Essas inovações visam aliviar o fardo diário da diabetes, mitigando o estresse constante e a incerteza sobre as flutuações glicêmicas futuras, que frequentemente interferem nas atividades cotidianas, como o sono, o trabalho e até mesmo momentos de lazer", explica Vianna.

O vice-presidente da SBD esclarece que os sensores são benéficos tanto para o diabetes tipo 1 quanto para o tipo 2. "No diabetes tipo 1, os resultados são perceptíveis mais rapidamente, por vezes no mesmo dia, enquanto no diabetes tipo 2, os benefícios se manifestam a longo prazo, com a redução de internações e complicações", detalha.

A polêmica da não incorporação pelo SUS

Em janeiro de 2025, o Ministério da Saúde divulgou sua decisão de não incorporar o monitoramento contínuo da glicose por escaneamento intermitente no Sistema Único de Saúde (SUS) para pacientes com Diabetes Mellitus tipos 1 e 2, gerando debate.

Tal determinação foi formalizada pela Portaria nº 2, emitida pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico Industrial da Saúde do Ministério.

Contrariando essa posição, a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados aprovou, em dezembro do ano anterior, o Projeto de Lei 323/25. Este projeto visa tornar obrigatório o fornecimento gratuito, pelo SUS, de dispositivos de monitoramento de glicose por escaneamento intermitente para pacientes com Diabetes Mellitus.

A proposta ainda aguarda análise conclusiva pelas comissões de Finanças e Tributação, e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para que se torne lei, o texto precisará ser aprovado tanto pela Câmara quanto pelo Senado.

A Agência Brasil tentou contato com o Ministério da Saúde para obter um posicionamento sobre o assunto, mas não obteve resposta até o momento da publicação.

FONTE/CRÉDITOS: Com informações da Agência Brasil