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O estado de São Paulo observou um crescimento nos registros de feminicídio em janeiro deste ano, comparado ao mesmo período do ano anterior. Vinte e sete mulheres foram assassinadas ao longo do mês, representando um acréscimo de cinco vítimas em relação a janeiro passado. As informações foram publicadas na última sexta-feira (27) no portal oficial da Secretaria da Segurança Pública (SSP) estadual.
De acordo com a pasta, houve prisões em flagrante dos agressores em 15 dos casos. Do total de vítimas, 20 perderam a vida em municípios do interior paulista, resultando em 12 detenções em flagrante. As ocorrências restantes foram registradas na capital e na região metropolitana.
Daiane Bertasso, pesquisadora do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem) da Universidade Estadual de Londrina (Uel), esclarece que múltiplos fatores contribuem para a negligência do ciclo de violência contra a mulher, culminando frequentemente no feminicídio.
Segundo ela, “o feminicídio não se configura como um evento súbito. Trata-se de um crime que emerge de relações familiares e íntimas, sucedendo um prolongado ciclo de diversas formas de violência”. Bertasso complementa que “a própria Lei Maria da Penha, ao classificar violências como psicológica, emocional e patrimonial, demonstra a escalada progressiva desse ciclo”.
A especialista ainda ressalta que o machismo, a misoginia e uma estrutura social que prioriza valores masculinos são elementos que levam à desconsideração dos sinais de violência que, muitas vezes, antecedem os atos de feminicídio.
Bertasso observa que “frequentemente, a mulher sente-se intimidada ou envergonhada, optando por não compartilhar sua situação com a família. E quando o faz, muitas vezes, a resposta familiar é de que se trata apenas de um momento ou uma fase passageira”.
Ademais, ocorrências recentes de feminicídio noticiadas pela imprensa evidenciam que, mesmo mulheres amparadas por medidas protetivas contra seus agressores, não obtiveram a salvaguarda eficaz do Estado, resultando em suas mortes.
Para a pesquisadora, “é crucial a implementação de políticas públicas mais eficazes, capazes de proporcionar um acolhimento genuíno a essas mulheres”.
A masculinidade tóxica também se apresenta como um fator gerador de violência contra as mulheres no Brasil. Bertasso explica: “Nossa linha de pesquisa sobre a 'machosfera' revela que essas redes digitais têm intensificado significativamente ideais machistas e misóginos, infelizmente moldando o pensamento de jovens e crianças”.
Ela defende que “seria imprescindível a inclusão de uma educação obrigatória sobre relações de gênero nas escolas, a fim de prevenir que crianças e jovens sejam aliciados por esses ambientes digitais com pouca regulamentação”.