O período de coleta de dados para o Censo da Pós-Graduação stricto sensu referente a 2025 foi estendido até 26 de fevereiro. Esta iniciativa marca a primeira vez que o Brasil realiza um levantamento estatístico abrangente sobre os programas de mestrado e doutorado no país.

A pesquisa, conduzida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), tem como principal objetivo fornecer subsídios para a formulação de políticas públicas que visem aprimorar a qualidade da pós-graduação nacional, alinhando-a à sua realidade.

O preenchimento dos dados é individual e obrigatório, realizado através da Plataforma Sucupira. Estão aptos a responder ao questionário:

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• Estudantes de mestrado e doutorado matriculados;
• Professores permanentes e colaboradores;
• Pesquisadores de pós-doutorado sem vínculo docente;
• Coordenadores de Programas de Pós-Graduação (PPGs) em atividade.

A Capes informa que os questionários foram elaborados de acordo com cada perfil de participante, incluindo perguntas de múltipla escolha com definições claras para assegurar a precisão das respostas.

Os pró-reitores e coordenadores de PPGs são responsáveis por monitorar e garantir a participação de todos os membros de seus respectivos programas dentro do prazo estipulado.

Um tutorial detalhado para o preenchimento está disponível.

A divulgação dos resultados está agendada para 16 de novembro de 2026.

Entrevista com a presidente da Capes

A Agência Brasil conversou com a presidente da Capes e professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Denise Pires de Carvalho, sobre esta iniciativa inédita, que passará a ser realizada anualmente.

Agência Brasil: Em 2025, a pós-graduação brasileira completa 60 anos de institucionalização. Passadas seis décadas, o primeiro censo da pós-graduação chega para o governo brasileiro saber os detalhes do que ocorre com essa importante etapa do ensino no país?
Denise Pires de Carvalho: Qualquer censo é fundamental para a definição de políticas públicas. A pós-graduação é um motor de conhecimento e desenvolvimento para todo o país. Mas, quem são os nossos pós-graduandos? Quem são os docentes? Quem está atuando neste ambiente crucial para o progresso de uma nação? Infelizmente, não possuímos esses dados detalhados, como o número de mulheres, homens, pessoas pardas, indígenas, brancas, distribuídos pelas diferentes regiões, ou a quantidade de indivíduos em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

Agência Brasil: Este levantamento tem caráter declaratório, por meio da coleta descentralizada de dados. O censo traz questões adaptadas ao perfil de cada um dos públicos que deve respondê-lo e às suas atividades acadêmicas. Dessa forma, a senhora acredita que as estatísticas produzidas serão mais confiáveis e detalhadas?
Denise Pires de Carvalho: As respostas dos docentes diferem significativamente das dos estudantes. Temos mais facilidade em acessar o perfil dos docentes, pois a maioria é servidor público em nossas universidades. No caso dos pós-graduandos, há mais incertezas e a necessidade de coletar informações mais aprofundadas.

Agência Brasil: E sobre a metodologia da pesquisa?
Denise Pires de Carvalho: O ponto central é que, nas novas fichas de avaliação dos programas de pós-graduação, a Capes está se distanciando da análise puramente quantitativa, característica da era da cientometria, e adotando uma abordagem quali-quantitativa. Não abandonamos o quantitativo, mas incorporamos os chamados 'casos de impacto'. Assim, independentemente do volume de artigos publicados, buscamos avaliar a qualidade dessas publicações e o seu impacto na mudança de políticas públicas, em uma área do conhecimento, ou na modificação de um tratamento, ou na origem de um processo ou produto. Com isso, a Capes passa a avaliar os cursos também sob a ótica da interação com a sociedade.

Agência Brasil: O questionário deste primeiro censo nacional incorpora perguntas sobre parentalidade. Esse eixo no censo ajuda a mapear como a parentalidade impacta na progressão nos cursos, a permanência acadêmica e a trajetória de alunos e docentes dentro dos programas?
Denise Pires de Carvalho: A parentalidade é um excelente exemplo de política pública que promove a igualdade, necessitando de ações de equidade. É consideravelmente mais desafiador para quem vivencia a maternidade ou paternidade, dependendo da circunstância, nos primeiros anos do curso, produzir conhecimento no mesmo ritmo de quem não tem um filho pequeno para cuidar.

Agência Brasil: A partir da identificação das desigualdades – que poderiam ser invisíveis por falta de dados ou historicamente eram tratadas como assunto individual, o que o governo federal pode fazer?
Denise Pires de Carvalho: Por exemplo, para um docente ser credenciado para orientar na pós-graduação, é preciso que ele produza conhecimento em sua área. A parentalidade já está integrada às fichas de avaliação do censo. Pretendemos que os programas considerem um período maior de análise para esses professores, em vez de um intervalo fixo, permitindo que eles dediquem tempo ao cuidado de seus filhos. Essa perspectiva nos humaniza e nos permite ajustar o tempo de avaliação do docente. Para os estudantes com bolsa, a lei atual determina que a Capes prorrogue o período da bolsa mediante solicitação. Quando iniciei meu doutorado, eu era coordenadora de curso e mãe. Mesmo assim, precisei cumprir todos os requisitos como se não tivesse uma criança para cuidar. Por mais apoio que uma mãe receba, a criança demanda atenção constante, especialmente nos primeiros anos. Durante o período de amamentação, temos a licença, mas esse tempo era computado em minha produção intelectual. Agora, isso não ocorre mais.

Agência Brasil: Esse olhar do poder público pode aumentar o número de mulheres no ambiente acadêmico?
Denise Pires de Carvalho: É um estímulo significativo. Muitas mulheres optam por não ingressar na área de orientação por estarem dedicadas aos cuidados dos filhos. Em termos gerais, as mulheres são maioria entre mestres e doutores desde 1997, e a maioria de doutoras há mais de 20 anos, desde 2005. No entanto, o corpo docente da pós-graduação é majoritariamente masculino, o que é alarmante. Existem impedimentos, como vieses implícitos na seleção, falta de igualdade de condições ou a própria relutância das mulheres em se candidatar a concursos. Há um filtro prévio. Não há justificativa para a predominância masculina quando as mulheres são maioria na graduação e na pós-graduação, e isso não se reflete no corpo docente. A maternidade é, certamente, um dos fatores que impedem a progressão das mulheres.

Agência Brasil: Sobre as diferenças regionais, o censo pode ajudar a identificar onde estão os lugares com maiores carências na pós graduação do país?
Denise Pires de Carvalho: Sem dúvida. Uma questão pertinente é se o percentual de bolsas de pós-graduação deve ser equitativo entre as diferentes regiões e áreas do conhecimento. Precisamos expandir para além do eixo Sul-Sudeste. A nova diretoria de informação científica analisará os dados do censo, em conjunto com o Plano Nacional de Pós-Graduação e a agenda estratégica, para definir os caminhos que levarão ao desenvolvimento do país e à redução da desigualdade social.

Agência Brasil: O que se sabe sobre a inclusão de estudantes pretos, pardos, indígenas e quilombolas e de pessoas com deficiência em seus programas de pós-graduação stricto sensu, prevista na revisão da Lei de Cotas (nº 14.723/2023)?
Denise Pires de Carvalho: É importante ressaltar que, ao final da graduação, ainda observamos disparidades, infelizmente, devido a questões de base. Para corrigir essas diferenças históricas, é necessária a implementação de cotas também na pós-graduação. Contudo, é um processo. Na revisão da Lei de Cotas, incluímos a pós-graduação, mas deixamos a critério de cada programa a decisão sobre a sua aplicação, dada a diversidade da pós-graduação. Portanto, a inclusão não pode ser obrigatória. Todas essas questões devem ser discutidas e implementadas com base na autonomia das universidades. No processo de avaliação, os programas que adotarem políticas afirmativas terão uma classificação melhor. Assim, é crucial que a Capes verifique se esses programas estão efetivamente promovendo a inclusão dos estudantes. Essa informação será obtida por meio do censo, pois uma coisa é ter a política afirmativa na norma, e outra é a sua efetivação. O estudante é quem relatará o que de fato ocorre, já que o censo é autodeclaratório.

Agência Brasil: Sabemos que as cotas na graduação receberam muitas críticas no passado. E as cotas na pós-graduação recebem também?
Denise Pires de Carvalho: Para que as cotas na pós-graduação sejam implementadas, é necessário um conjunto de ações prévias. Para muitos estudantes pretos e pardos, a igualdade em relação aos brancos ao ingressar na graduação não se concretiza, devido ao racismo estrutural e às disparidades socioeconômicas do país. A nota de corte para um curso de graduação é influenciada pelo ensino básico. Escolas de elite oferecem uma preparação distinta do ensino público básico. Idealmente, o ensino público básico deveria ter a mesma qualidade das universidades públicas, que são referências nacionais. Contudo, como equiparar as condições domésticas? O ambiente familiar e de estudo, além de outros fatores sociais, impõe barreiras adicionais para o acesso à educação superior de uma parcela da população. Acompanhei a implementação da Lei de Cotas (nº 12.711/2012) e observei que os cursos superiores em instituições públicas mantiveram sua excelência. Na época, havia a previsão de que o ingresso de estudantes pretos e pardos pela lei reduziria a qualidade, o que não ocorreu. Atualmente, na pós-graduação, observamos estudantes que iniciaram sua trajetória em laboratórios e bancadas desde a graduação. É natural que um estudante participe de um programa de iniciação científica, independentemente de sua etnia. No entanto, antes, a maioria dos participantes em iniciação científica era branca. Hoje, vemos estudantes negros e pretos recebendo premiações nessa área. Isso indica que a política pública está no caminho certo, sendo inclusiva e promovendo não apenas o acesso, mas também a permanência, por meio da concessão de bolsas e oportunidades.

Agência Brasil: Como o censo pode ajudar a Capes a prevenir a evasão de pós-graduandos causada, sobretudo, por questões de saúde mental. Eles são impactados pelas atividades acadêmicas e prazos?
Denise Pires de Carvalho: O aprendizado envolve sair da zona de conforto e adquirir novos conhecimentos. A questão da saúde mental é multifacetada, e uma parcela da população, tanto na educação básica quanto no ensino superior, pode apresentar problemas de saúde mental, independentemente do ambiente acadêmico estressante. Nesse contexto, após a graduação, alguns seguem para a pós-graduação, enquanto outros questionam sua capacidade profissional e seus caminhos futuros. Esse conjunto de fatores gera um estresse natural que pode levar ao adoecimento. Aqueles que ingressam no mestrado ou doutorado já lidam com algum nível de estresse, que pode desencadear questões de saúde mental de gravidade variável. São gatilhos, reconheço. No entanto, a pós-graduação apresenta o menor índice de evasão entre os níveis de ensino. A taxa de abandono é significativamente menor do que na graduação, que pode ultrapassar 40% ou até 50% em alguns cursos, mesmo em instituições públicas. Portanto, embora a pós-graduação seja um ambiente estressante, não é mais do que outros. A taxa de evasão na pós-graduação é inferior a 10% no doutorado e mestrado, situando-se em torno de 4% a 5%, dependendo da análise. Essa porcentagem é esperada, pois a evasão pode ocorrer quando um estudante decide mudar de trajetória ou não se adapta ao ambiente desafiador. Reconhecemos que problemas de saúde mental são um fator de evasão, e, portanto, devemos aprimorar o ambiente da pós-graduação para torná-lo menos estressante, sem comprometer a qualidade dos cursos.

Agência Brasil: Há ainda os fatores socioeconômicos no país, pelo fato de as pessoas precisarem trabalhar para o próprio sustento ou de sua família? Por isso, como avalia a importância das bolsas de estudo?
Denise Pires de Carvalho: A bolsa de estudo é essencial para a permanência do indivíduo na pós-graduação, pois sem ela seria inviável continuar os estudos. Estamos formando um profissional que fará a diferença para o Brasil. A principal fonte de estresse é a falta de bolsa. Por isso, o governo federal está empenhado em ampliar o número de vagas e bolsas na pós-graduação. Estamos longe de ter 100% de bolsistas na pós-graduação; na verdade, a maioria não possui bolsa, em termos percentuais, com bolsas da Capes. É importante que o país tenha ciência disso, pois muitos acreditam que todos os mestrandos e doutorandos recebem bolsas.

Agência Brasil: Por que uma nação precisa de doutores?
Denise Pires de Carvalho: Um país com um número elevado de mestres e doutores é mais desenvolvido. O Brasil tem passado por diversas fases para alcançar o desenvolvimento. Nesses 60 anos, construímos um sistema nacional de pós-graduação consolidado e robusto. Para isso, nossas universidades precisaram expandir o número de professores doutores. Grande parte dos doutores formados na pós-graduação atua hoje como docente nesse mesmo nível. Isso significa que os doutores que formamos anteriormente agora formam novos doutores. O Brasil necessita de doutores. Nas últimas duas décadas, as gestões anteriores da Capes implementaram um estágio obrigatório em docência para bolsistas da instituição. Um indivíduo que participa da pós-graduação e ministra aulas sob supervisão, se demonstrar aptidão, tende a permanecer nesse ambiente, o que gera um retorno significativo. Esse estágio obrigatório contribuiu para que diversas universidades federais hoje contem com 100% de professores doutores. A Universidade Federal do ABC (UFABC), por exemplo, não possui nenhum professor sem doutorado. A maioria das universidades federais apresenta mais de 80% a 85% de doutores em seu corpo docente. As universidades federais são as melhores do país e oferecem os melhores cursos devido à qualificação de seus professores. Os cursos de maior prestígio estão onde o corpo docente é mais qualificado, um padrão mundial.

Agência Brasil: É importante dar continuidade a esse movimento de formação de doutores para o ambiente acadêmico ou é hora de focar na formação de doutores para o setor produtivo não acadêmico?
Denise Pires de Carvalho: Um professor com vocação para a docência e a produção de conhecimento no ambiente acadêmico continuará sendo essencial, pois o corpo docente da pós-graduação envelheceu, exigindo renovação. Contudo, essa formação não pode ser exclusiva, uma vez que nenhum país se desenvolveu sem a interação entre universidade e empresa, sem o ambiente de inovação presente no setor empresarial.

Agência Brasil: As universidades brasileiras estão direcionadas a formar mais doutores para interagir com o setor produtivo não acadêmico?
Denise Pires de Carvalho: Sim. Precisamos desenvolver esse setor, e é isso que o governo federal tem feito com o plano Nova Indústria Brasil. No ano passado, a Capes permitiu que o estágio obrigatório fosse realizado em qualquer ambiente, inclusive no empresarial. Estamos em uma nova fase, na qual os doutorandos podem se aproximar de empresas e da sociedade civil organizada durante o doutorado. A Capes abriu os programas de pós-graduação para todos os tipos de interação, em áreas vinculadas ao conhecimento, sob a determinação do orientador e do pós-graduando.

Agência Brasil: Com isso, a Capes passa a avaliar os cursos do ponto de vista da interação com a sociedade?
Denise Pires de Carvalho: Nas fichas de avaliação, analisamos os impactos regionais, locais, nacionais e até internacionais dessa mudança de paradigma, que vai além do estágio em docência. Agora, o estágio pode ser realizado na sociedade civil organizada, incluindo empresas. Temos o estágio obrigatório do bolsista da Capes associado à inovação, que é o Programa Doutorado Acadêmico para Inovação (DAI) do CNPq. Firmamos um acordo de cooperação técnica com a Embrapii e estamos elaborando o primeiro acordo com a Finep. Isso demonstra a aproximação da Capes com o setor produtivo não acadêmico por meio de diversas ações.

Agência Brasil: Considerando que o censo da Capes para os Programas de Pós-Graduação possui um universo de 504 mil participantes e está aberto há dois meses, quais estratégias devem ser adotadas para garantir o engajamento total das universidades até o prazo final de 26 de fevereiro, assegurando assim a representatividade dos dados?
Denise Pires de Carvalho: Neste momento, já contamos com a participação de quase 70% do público-alvo do censo. Mais de 150 Programas de Pós-Graduação atingiram 100% de preenchimento dos formulários, e muitos outros estão com 98%. Nosso objetivo é concluir o censo o mais rápido possível para que possamos analisar os dados e apresentar à sociedade brasileira um retrato fiel da pós-graduação.

FONTE/CRÉDITOS: Com informações da Agência Brasil