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No alvorecer, às 4h30, quando o som do Córrego da Inês se torna mais audível a cerca de 50 metros de distância, o jovem Aleandro, de 6 anos, desperta com entusiasmo para ir à escola. Ele arruma seu uniforme e se junta aos seus irmãos mais velhos, Alecssandro, de 7 anos, e Tawane, de 15. Juntos, eles percorrem rapidamente uma subida de quase dois quilômetros em meio à escuridão, por uma estrada de terra estreita e irregular, atravessando o Cerrado.
Os estudantes da comunidade quilombola de Antinha de Baixo, situada na zona rural de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, precisam apressar o passo para não perder o transporte escolar que parte às 6h10. O veículo transporta cerca de 12 crianças da região para as escolas municipais no centro da cidade, a aproximadamente 15 km de distância. A situação, contudo, já foi mais precária.
Raízes da comunidade
Os pais das crianças, os agricultores Roberto Braga, 42 anos, e Mayara Soares, 35, sentem orgulho do trajeto que seus filhos iniciam, tanto na estrada quanto na vida. Eles relatam que tiveram que abandonar os estudos por falta de qualquer suporte para se deslocar até a cidade.
O avô das crianças, Joaquim Moreira, reside com a família. O idoso, que vive na mesma casa onde nasceu há 87 anos, é o morador mais antigo da comunidade. Ao observar os jovens saindo para estudar, ele expressa a esperança de que as gerações futuras não enfrentem as mesmas adversidades do passado.
Seu Joaquim, como é conhecido na localidade, foi quem recebeu no ano passado, em Brasília, o certificado de autorreconhecimento como comunidade remanescente de quilombo. Atualmente, a comunidade abriga aproximadamente 400 famílias.
O documento trouxe esperança à comunidade após uma longa disputa judicial contra fazendeiros e grileiros que reivindicavam a posse do território. Houve casos em que casas de quilombolas foram demolidas com base em decisões desfavoráveis, mas uma liminar do Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu os despejos. Os moradores também relataram ter sofrido ameaças constantes por indivíduos armados.
Recentemente, equipes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), incluindo antropólogos, estiveram na comunidade para elaborar o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) de Antinha de Baixo. O órgão informou que o levantamento abrange estudos técnicos e científicos para caracterizar a área, reunindo informações sobre suas particularidades geográficas, históricas e etnográficas.
A certificação é celebrada pelos moradores, pois aproxima a comunidade da possibilidade de demarcação e titulação do seu território. Além disso, a certificação já estimula a busca por políticas públicas que atendam às necessidades locais, incluindo as das famílias cujos filhos mais novos precisam acordar cedo para ir à escola.
“O trajeto para eles irem estudar ainda é muito desafiador”, comenta a mãe, Mayara. O pai complementa, na esperança de que a estrada receba alguma iluminação: “Hoje está muito escuro”, lamenta.
Um futuro de esperança
Para os irmãos Aleandro e Alecssandro, a escola representa não apenas um local para aprender a ler, mas também um espaço para fazer novas amizades. Por isso, eles consideram que vale a pena a caminhada noturna.
Aleandro mostra o caderno com as sílabas que copiou do quadro. A família nutre a expectativa de que os meninos consigam alfabetizar-se ainda neste ano.
As aulas se estendem até as 11h, mas o retorno para casa só é possível após as 13h30. Nenhum morador da comunidade pode frequentar o período da tarde, pois não há transporte disponível para o centro da cidade. Em dias de chuva intensa, situação não incomum, o deslocamento torna-se praticamente inviável.
Superando desafios
A irmã mais velha, Tawane, de 15 anos, cursa a sétima série e enfrentou obstáculos significativos em seu trajeto. Há três anos, para chegar à escola, ela precisava atravessar um córrego para alcançar o transporte que a levaria ao centro da cidade, chegando frequentemente com as roupas molhadas. Após reclamações da mãe à prefeitura, um veículo adicional foi providenciado para atender outra parte da comunidade.
“Eles não queriam vir buscar por este lado, e nós tínhamos que atravessar. Quando chovia à noite, era impossível ir para a escola”, relata Mayara. Atualmente, sua filha aprecia as aulas de português e ciências, e sonha em cursar veterinária, o que a tornaria a primeira da família a ingressar no ensino superior.
Do outro lado do rio, Débora, de 6 anos, está aprendendo as primeiras letras e também precisa madrugar para ir à escola. Além de juntar as sílabas, a menina, que acorda pouco antes das 5h, desperta para a alegria das brincadeiras de pega-pega com as amigas no intervalo.
Em seu caderno, além das letras, Débora gosta de desenhar, especialmente as flores que observa perto de sua casa. “Meu caderno está cheio de folhas”, comenta. Miguel, primo de Débora, também com 6 anos, aprecia os momentos de jogar futebol e se divertir com os colegas na escola.
Atualmente, três veículos transportam aproximadamente 40 estudantes da comunidade para as escolas. No entanto, as crianças sentem o cansaço devido às longas distâncias percorridas diariamente.
Lutas e conquistas familiares
O irmão da pequena Débora, Willianderson Moreira, de 27 anos, é o presidente da associação das famílias da comunidade quilombola Antinha de Baixo. A associação, que obteve registro oficial recentemente, conta com 120 membros engajados na luta por melhores condições para o local onde seus antepassados escravizados buscaram refúgio e resistiram.
“Quando o Incra realizar a desapropriação da área, um título particular será emitido para a associação administrar o local. Assim, os associados serão os responsáveis por toda a gestão do território”, explica.
A associação projeta que a demarcação e titulação do território ocorram até 2027.
Moreira destaca as prioridades da comunidade: creche, escola, posto de saúde, iluminação pública, estradas de qualidade, transporte, fomento à agricultura familiar e segurança.
Em relação às vias de acesso, a comunidade já protocolou um ofício na prefeitura. Para encaminhar as demandas, contam com o apoio da professora Railda Oliveira, ativista e líder comunitária em Santo Antônio do Descoberto.
Foi Railda quem reuniu os documentos e explicou aos moradores como a certificação poderia proteger o modo de vida quilombola.
“Esta comunidade passou por momentos muito difíceis e esteve perto de ser expulsa. Agora, eles começam a ter um respiro”, afirma Railda.
A reportagem da Agência Brasil contatou a prefeitura de Santo Antônio do Descoberto e o governo de Goiás para obter informações sobre políticas públicas destinadas à comunidade, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para manifestações do poder público.
Ausência de serviços básicos
Os moradores de Antinha de Baixo relatam apreensão a cada febre de crianças e idosos, dada a ausência de transporte público. O socorro depende da solidariedade de poucas famílias que possuem veículos.
“Já tivemos que sair de madrugada em busca de ajuda para meus filhos e meu pai”, conta Roberto Braga. Os agentes de saúde não conseguem chegar às residências. O hospital mais próximo fica a 20 quilômetros da comunidade.
“Quem não tem carro e não consegue ajuda, só resta rezar”, lamenta Willianderson Moreira.
Os trabalhadores rurais também necessitam de suporte para suas atividades, em uma área que ainda preserva características naturais. O Córrego da Inês, que em sua infância era um rio, hoje está seco.
“O rio secou. Meu pai costumava extrair areia para vender, mas a areia também acabou. Hoje, o dia é muito mais seco do que antes”, relata Mayara.
Roberto, apesar de não ter tido a oportunidade de estudar, recorda que a vegetação ao redor de sua casa oferecia uma variedade de frutos muito maior do que atualmente. “Hoje está tão seco que não há mais fruta-de-ema, bacupari, gabiroba… O que ainda resta é o caju do cerrado. Meus filhos têm menos opções do que eu tive nesse aspecto.”
A escassez pode não estar relacionada apenas às mudanças climáticas. A comunidade alega que grileiros e fazendeiros que se estabeleceram na região utilizaram agrotóxicos, prejudicando a mata nativa.
Apesar dos desafios, as crianças não se imaginam longe da vida no campo. Débora, por exemplo, admira a plantação de milho próxima à sua casa.
“É muito bom morar aqui. Há muitas coisas para fazer. Podemos debulhar o milho e, quando está no ponto, fazer pamonha”, diz a menina com um sorriso.
Rejane Moreira, 41 anos, mãe de Débora e do presidente da associação, também nasceu e foi criada na mesma casa. Ela não teve a oportunidade de prosseguir os estudos após o fechamento de uma escola rural. “Estudei apenas até a quarta série.”
Desafios educacionais
Outra moradora que busca concluir seus estudos é Ana Clity Vieira, de 57 anos, que atua como vendedora autônoma. Ela participa de um curso oferecido pelo programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) no centro de Santo Antônio do Descoberto.
Quando a reportagem da Agência Brasil a visitou, ela chorava, desolada por não ter conseguido realizar as provas necessárias para avançar da sétima série. A falta de transporte a impedia de se deslocar para o centro. Para estudar, ela precisa pernoitar na casa de colegas, pois não tem como retornar.
No ano passado, quando fazendeiros obtiveram sucesso na desapropriação de terras quilombolas, a casa de Ana só não foi demolida porque seguranças a utilizaram como ponto de apoio. “Fui a primeira pessoa a ser expulsa.”
Ela precisou se refugiar em uma casa alugada no centro da cidade, contraindo dívidas. Após a decisão do STF, retornou à sua casa e hoje sobrevive vendendo produtos que cultiva.
“Aqui posso criar minhas galinhas, plantar minhas coisinhas, como açafrão, e fazer azeite de mamona para vender.”
Ana comercializa produtos da terra com dois objetivos: montar uma loja e escrever um livro sobre sua trajetória, narrando suas experiências com o desejo de aprender e as dificuldades da vida. O livro, ainda não escrito, já tem título: Resistência. O outro título que ela almeja é o da terra.
Jéssica Gonçalves, 35 anos, dona de casa e mãe do caçula da comunidade, Henrique, de oito meses, relata que a ausência de uma creche próxima a impede de realizar outras atividades além de cuidar do filho. Ela espera que o menino cresça livre em um território demarcado e seguro, com acesso a oportunidades que ela própria não teve. Contudo, ela considera fundamental que Henrique aprenda a história de sua comunidade e as lutas travadas em busca de um futuro melhor.