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O Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio, reacendeu discussões cruciais sobre a relevância do brincar livre como um direito humano fundamental e pilar para o desenvolvimento integral da infância. Em todo o Brasil, diversas atividades foram promovidas para conscientizar a sociedade sobre a necessidade de garantir espaços e tempo para que as crianças possam se expressar e crescer plenamente, conforme preconizado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e pela Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas (ONU).
Para aprofundar o debate, a Agência Brasil entrevistou Sarah Menezes Rocha, pesquisadora, professora universitária e especialista na temática. Conselheira da Aliança pela Infância, um movimento internacional dedicado à defesa da infância que há 20 anos promove a data no Brasil, Rocha é também mãe de uma bebê de 1 ano e formadora de docentes.
Em um manifesto divulgado nas redes sociais na semana anterior, a Aliança pela Infância sublinhou que o brincar representa a forma primordial pela qual a criança "existe, se expressa, elabora sentimentos e compreende o mundo".
A organização fez um alerta contundente sobre a urgência de dedicar tempo às brincadeiras, especialmente em um cenário global cada vez mais dominado por telas e tecnologias digitais.
"É através do brincar livre que as crianças se desenvolvem integralmente, estabelecem vínculos e interagem com o próximo, cultivando sua humanidade", afirma o texto da Aliança. A entidade complementa: "Brincar é a via pela qual a criança participa da sociedade, constituindo-se como uma expressão cidadã e democrática".
As celebrações do Dia Mundial do Brincar estenderam-se até o domingo, dia 31. A Aliança pela Infância disponibilizou em seu site uma agenda nacional abrangendo atividades em escolas, coletivos, organizações e comunidades em todo o território nacional, funcionando como um convite à sociedade para se engajar ativamente na defesa desse direito fundamental.
Entrevista: a essência do brincar e seu impacto no desenvolvimento
Questionada sobre a definição e a importância do brincar, Sarah Menezes Rocha explica que ele é, essencialmente, a linguagem da própria infância. "É a forma como a criança se relaciona com o mundo, com o outro e consigo mesma", detalha.
A especialista ressalta que, ao brincar, a criança não está meramente se distraindo; ela está ativamente experimentando o ambiente, exercitando a imaginação, formulando hipóteses, vivenciando diferentes emoções, construindo vínculos e, inclusive, traduzindo a cultura.
Ela ainda destaca a riqueza cultural do brincar no Brasil, com suas peculiaridades regionais. "As crianças também são seres produtores de cultura, dentro do que é a grande cultura brasileira", complementa.
Sobre a existência de uma idade limite para as brincadeiras, Sarah Menezes Rocha é enfática: "Não. O brincar nasce na infância, mas o carregamos conosco pela vida toda".
A professora enfatiza que, como adultos, é nossa responsabilidade manter a sensibilidade para acessar a criança que fomos um dia, pois "ela está sempre conosco".
Questionada sobre a fundamentalidade do brincar na formação humana, a especialista descreve-o como um "espaço privilegiado de construção do ser humano".
"Através da brincadeira, a criança aprende a negociar, a esperar, a lidar com diversas situações e conflitos", explica Rocha, concluindo que "o brincar é a centelha da formação humana".
O brincar na Base Nacional Comum Curricular (BNCC)
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento do Ministério da Educação que delineia o que os estudantes devem aprender, inclui o brincar como parte integrante do currículo da educação infantil. Ao abordar sua aplicação, Sarah Menezes Rocha, em nome da Aliança pela Infância, reconhece a existência de "trabalhos maravilhosos" em escolas, tanto públicas quanto em espaços não escolares.
No entanto, ela aponta uma lacuna no ensino fundamental, onde "ainda prevalece a visão de que a criança deixou de ser criança".
A professora alerta que, no ambiente escolar, as disciplinas frequentemente dominam o espaço antes dedicado e valorizado à brincadeira. "O brincar não deve ser periférico no currículo. Ele precisa ser reconhecido", defende.
Rocha também adverte sobre o "risco muito grande de escolarizar precocemente a infância", com a antecipação de conteúdos e cobranças avaliativas. Essa prática, segundo ela, prejudica o desenvolvimento, pois a criança necessita do espaço da brincadeira, inclusive no ensino fundamental.
Desafios e compromisso coletivo com o brincar
Ao ser questionada se as escolas estão preparadas para incentivar o brincar, Sarah Menezes Rocha destaca a "pressão grande por desempenho" que permeia o ambiente escolar atualmente. "Precisamos discutir isso com responsabilidade", afirma.
Ela observa uma "antecipação da lógica produtivista na infância", onde se espera que as crianças atuem como "seres produtores". Essa realidade leva até mesmo crianças muito pequenas a um excesso de atividades dirigidas, metas e estímulos, em detrimento de um tempo adequado para a experiência livre.
Rocha enfatiza que a raiz do problema não se limita à escola, mas se estende à comunidade. "Nós precisamos de um compromisso comunitário e social com o brincar", declara, ressaltando a necessidade de ações nos âmbitos escolar e familiar, além de políticas públicas eficazes.
Para incentivar o brincar, a especialista sugere começar por "garantir tempos menos acelerados para as crianças" tanto no ambiente familiar quanto no escolar. Ela aconselha valorizar as experiências ao ar livre, ocupar espaços seguros como praças e parques, e cobrar das autoridades a manutenção da segurança nesses locais.
Além disso, Rocha recomenda promover brincadeiras coletivas em casa e em condomínios, e sempre incluir as crianças nas decisões e atividades, ampliando o espaço de escuta.
"As crianças precisam ser ouvidas. Elas sabem dizer como podemos abrir espaço para o brincar de forma livre", argumenta. Conclui que o desenvolvimento humano saudável é alcançado quando se oferecem oportunidades para que a criança possa, simplesmente, ser criança.