O cantor Osmin Carlson, nome artístico do policial Carlos Hogendorp, de 31 anos, que foi adotado por holandeses aos quatro anos de idade, nutre o desejo de retornar e residir permanentemente no Brasil. Essa aspiração surgiu após uma profunda jornada de autodescoberta e busca por suas raízes, que o levou de volta ao país natal, onde compartilha sua experiência de vida.

Nascido em Leme, São Paulo, Carlos Hogendorp vivia em um abrigo antes de ser adotado, aos quatro anos, por um casal holandês, juntamente com seus irmãos biológicos Joseir e Isabel. Sua conexão com a ancestralidade brasileira o impulsionou a uma "missão": conscientizar sobre a importância dos cuidados e direitos da infância.

Atualmente, em período de férias no Brasil, Carlos tem dedicado seu tempo a palestras e rodas de conversa. Nesses encontros, ele compartilha detalhes de sua jornada de descoberta, que descreve como uma verdadeira "volta para casa".

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“Quando criança, eu não sabia o nome Brasil, mas sentia que havia nascido muito longe dali”, revela em um português fluente. Ele decidiu aprender o idioma para se aprofundar em seu passado no interior paulista e para se conectar com o país que tanto desejava descobrir.

Suas memórias incluem as dificuldades vividas em casa e a rotina em um abrigo para crianças em situação de vulnerabilidade. “Falo com respeito, mas não foi fácil. Lembro que uma pessoa batia nas crianças com um cinto”, conta. Há uma década, essa busca por compreender seus sentimentos o levou a revisitar essas lembranças.

Os pais adotivos holandeses, cujos nomes ele prefere manter em privacidade, sempre demonstraram parceria e abertura para discutir o significado da adoção em suas vidas. Mesmo nos momentos em que a comunicação era desafiadora, como ele recorda: “Quando criança, tínhamos um dicionário para nos entender”.

Adoção internacional e seus desafios

A adoção internacional no Brasil é viabilizada pela adesão do país à Convenção de Haia, sendo regulamentada pelo Decreto nº 3.174, de 16 de setembro de 1999. A responsabilidade por essas adoções, que envolvem crianças brasileiras destinadas ao exterior, recai sobre as autoridades judiciárias estaduais e do Distrito Federal.

As diretrizes estabelecem que as adoções internacionais devem priorizar o interesse superior da criança e garantir o pleno respeito aos seus direitos fundamentais. Os países signatários são incumbidos de “instaurar um sistema de cooperação entre os Estados Contratantes que assegure o respeito às mencionadas garantias e, em consequência, previna o sequestro, a venda ou o tráfico de crianças”.

Felizmente, no caso de Carlos, todos os seus direitos foram devidamente respeitados. Aos quatro anos, ele foi matriculado na creche, conforme a legislação holandesa. “Foi muito difícil me adaptar, mas aprendi muito rápido”, recorda. Essa capacidade de adaptação também se manifestou em sua formação como policial, em uma cidade tão pacata que os agentes não necessitam portar armas.

A conexão com o Brasil através do futebol

A primeira forte conexão emocional com seu país de origem ocorreu durante a semifinal da Copa do Mundo de 1998. A 7 de julho daquele ano, Carlos surpreendeu a todos ao seu redor ao vibrar efusivamente com a vitória brasileira. A partir daquele momento, o amarelo tornou-se sua cor favorita. Quatro anos mais tarde, a conquista do pentacampeonato pelo Brasil intensificou ainda mais essa emoção. “Quando via qualquer coisa sobre o Brasil na televisão, eu ficava emocionado. Era curioso”, descreve.

Impulsionado por essa forte ligação, ele começou a buscar auxílio para conhecer o Brasil. Esse anseio se intensificou em 2013, com a gravidez de sua então namorada. Ao refletir sobre a filha que estava por vir, questões profundas surgiram: quem era, de fato, o homem no espelho? Por que não permaneceu em seu país de nascimento? “Eu tinha muitas perguntas. Procurei um programa de TV holandesa para me ajudar a conhecer minhas raízes”, relata.

A busca pela mãe biológica

Em 2014, o programa de televisão holandês conseguiu reunir as informações e pistas necessárias na cidade de Leme, São Paulo. Foi assim que Carlos localizou sua mãe biológica, Maria de Fátima, e descobriu a existência de outros 16 irmãos vivendo no Brasil. Seu pai já havia falecido, e a mãe estava cumprindo pena na prisão.

Carlos prefere não detalhar os motivos da prisão de sua mãe. O reencontro pessoal ocorreu em 2014, após ela ter cumprido pena por furto de uma peça de roupa, conforme noticiado pelo Programa Balanço Geral, da TV Record, à época. Há também menções de seu envolvimento com o tráfico de drogas.

“Minha mãe biológica não pôde exercer o papel de mãe no passado devido a uma longa pena de prisão. Atualmente, ela ainda está cumprindo sentença”, afirma Carlos.

O contato com a família biológica representou um verdadeiro choque de realidade, ao se deparar com a complexidade da situação e as diversas histórias de vida.

“Eu vi crianças que moravam na rua e em orfanatos. Eu vi a minha história nos olhos deles”, descreve. Hoje, Carlos dedica-se ao trabalho voluntário, buscando conscientizar sobre a importância de apoiar os processos de adoção e de conhecer os projetos de apadrinhamento no Brasil, os quais considera cruciais.

O apadrinhamento afetivo, uma iniciativa no Brasil, possibilita que membros da sociedade civil ofereçam suporte a crianças e adolescentes em instituições de acolhimento, especialmente aqueles com reduzidas chances de reintegração à família biológica.

Uma voz pela adoção no Brasil

Carlos almeja ser um porta-voz e incentivador da adoção por famílias brasileiras, com o objetivo de evitar que crianças precisem ser adotadas por estrangeiros e, assim, permaneçam no Brasil.

“Eu nasci no Brasil e fui para outra parte do mundo, mas voltei. Porque meu coração queria ficar aqui. O ‘brasileiro’ nunca vai embora de você”, declara ele com convicção.

Carlos observa que muitos brasileiros adotados que conheceu na Europa sentem uma profunda falta do país natal. No entanto, frequentemente evitam abordar o tema para não ferir os sentimentos de suas famílias adotivas. “Não falam, mas o coração chora”, revela. Ele também recebe inúmeros pedidos de outros brasileiros que buscam reencontrar suas famílias de origem, e, apesar de reconhecer que o Brasil é muito maior que a Holanda, ele encoraja essa busca.

Carlos acredita ser fundamental compartilhar, sempre que possível, o testemunho de que uma infância bem cuidada é a chave para abrir inúmeras oportunidades. Seu maior sonho, contudo, é um dia retornar para morar e trabalhar em seu país natal. Além disso, ele anseia por apresentar o local onde nasceu à sua filha, Viena, hoje com 13 anos.

“Foi uma grande batalha para mim e para muitos outros não conhecer nossas raízes”, reflete. Ele enfrentou diferenças culturais significativas, com gestos e expressões de afeto distintas. Sentiu falta dos abraços calorosos de casa, mas faz questão de ressaltar que o amor nunca lhe faltou. “É o que a gente espera de quem adota”, conclui.

FONTE/CRÉDITOS: Com informações da Agência Brasil