Espaço para comunicar erros nesta postagem
Os restos mortais de Grenaldo de Jesus da Silva, militar da Marinha assassinado pela ditadura brasileira em 1972 e sepultado como indigente em uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em Perus, São Paulo, foram finalmente sepultados na manhã desta sexta-feira (26). A cerimônia, marcada pela emoção e pelo canto de "Pra Não Dizer que Não Falei das Flores", de Geraldo Vandré, reuniu familiares, autoridades e ativistas em um ato de memória, verdade e justiça.
Após 54 anos da sua morte, Grenaldo foi levado em cortejo até a sepultura 105, na gleba 1, quadra 2, do Cemitério Dom Bosco. A ex-militar, preso em 1964 e expulso da Marinha, vivia na clandestinidade após fugir da prisão e foi morto ao tentar capturar uma aeronave no Aeroporto de Congonhas. Inicialmente, a ditadura divulgou que ele teria se suicidado, mas investigações posteriores revelaram que foi executado por agentes do Estado.
Um ato de reconhecimento e dignidade
Uma placa com a foto de Grenaldo e um texto explicativo sobre sua vida e morte foi afixada na sepultura, com a mensagem de seu filho: "Podia ser diferente, não é, meu pai?". O sepultamento é fruto do trabalho conjunto da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (Cemdp), do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), da Comissão de Familiares de Pessoas Mortas e Desaparecidas Políticas de São Paulo, da Concessionária Cortel e do Centro de Arqueologia e Antropologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (Caaf/Unifesp).
Emocionado, o filho de Grenaldo, que também se chama Grenaldo, prestou uma homenagem ao pai que ele pouco conheceu. "Para mim é uma felicidade muito grande, é uma mistura de emoções, mas eu estou muito feliz", declarou, expressando o desejo de que outros familiares na busca por entes queridos também alcancem essa mesma felicidade.
Uma mensagem escrita pela filha de Grenaldo foi lida, expressando a dor da ausência e a importância de dar um lugar digno à memória e ao luto. "Hoje dou um lugar à memória, ao luto que ficou suspenso e a história que insistiu em permanecer", leu a jovem, emocionando os presentes.
A luta pela memória e justiça
A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello, destacou o profundo significado do sepultamento para a história do Brasil e para o compromisso do Estado em não tolerar a tortura. "A gente quer garantir não só o direito à memória, mas à verdade, à reparação e à justiça", afirmou.
A ministra reiterou o compromisso do governo federal em continuar investindo recursos na identificação de vítimas da ditadura, apesar do longo caminho que ainda se tem pela frente. "Temos um plano de ação pela frente que vai nos demandar muito trabalho e muito esforço, mas que estamos muito comprometidos a fazer", assegurou.
A procuradora da República Eugênia Augusta Gonzaga, presidente da Cemdp, ressaltou que o ato devolve dignidade aos corpos escondidos e às famílias que aguardavam por esse momento. "Isso devolve a dignidade para esses corpos que foram escondidos e que ficaram aqui no meio da lama, e também devolve para as famílias a esperança de um dia poder fazer esse sepultamento", disse.
Edson Teles, professor da Unifesp e coordenador do Caaf, enfatizou que a identificação das ossadas encontradas na vala clandestina é fundamental para a construção da memória do país e para a reparação histórica. "Quando a gente entrega para a família os restos mortais de um desaparecido, a gente também faz uma grande reparação histórica ao país e aos movimentos de direitos humanos", explicou.
Ricardo Polito, diretor executivo do grupo Cortel, descreveu o sepultamento como um símbolo da força, da memória, da verdade e da dignidade humana, destacando a importância de devolver respeito a uma história que não pode ser esquecida.
Amelinha Teles, escritora e integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, celebrou o sepultamento como um reconhecimento da validade da luta dos familiares, mas alertou que a busca por respostas sobre os desaparecidos políticos ainda continua.
O contexto da Vala Clandestina de Perus
Grenaldo de Jesus Silva, natural de São Luís, Maranhão, foi preso em 1964 e expulso da Marinha por reivindicar melhores condições de trabalho. Após fugir da prisão, viveu na clandestinidade e foi morto em 30 de maio de 1972. Documentos do IML registraram seu sepultamento como indigente no Cemitério Dom Bosco em 1º de junho de 1972, permanecendo como desaparecido até a identificação de seus restos mortais em abril de 2025.
A vala clandestina de Perus, descoberta em 1990 pelo jornalista Caco Barcellos, continha 1.049 ossadas sem identificação de vítimas de esquadrões da morte, indigentes e presos políticos. A identificação das ossadas tem sido um processo complexo e demorado, com a retomada dos trabalhos em 2014 e um novo acordo de cooperação técnica assinado em 2024 para financiar a contratação de equipes periciais.
Em março de 2025, a então ministra Macaé Evaristo pediu desculpas aos familiares pela negligência do Estado brasileiro na guarda e identificação dos remanescentes ósseos. Até então, apenas seis ossadas haviam sido identificadas, incluindo a de Grenaldo de Jesus Silva.