O recente espancamento do cão comunitário Orelha por quatro adolescentes em Florianópolis (SC) reacendeu um debate nacional sobre a violência contra animais. As discussões atuais focam na punição dos agressores, na banalização da brutalidade e, principalmente, em estratégias de prevenção, ressocialização e medidas educativas.

Enquanto os jovens da Praia Brava demonstraram falta de empatia e impulsividade em relação a Orelha e Caramelo, além de estarem sob investigação policial por outros atos, a Teoria do Elo surge como uma tentativa de explicar tais comportamentos. Para aprofundar o tema, a Agência Brasil buscou a perspectiva de organizações não governamentais (ONGs) dedicadas a animais abandonados ou vítimas de maus-tratos, bem como da prefeitura de São Paulo, que gerencia um dos maiores programas públicos de adoção e educação ambiental. O objetivo é compreender como a promoção do contato e do cuidado com os animais pode prevenir e quebrar padrões de violência.

O Instituto Ampara Animal, com 15 anos de atuação em defesa dos animais, apoio a abrigos e promoção de debates, lançará em breve a campanha "Quebre o Elo". A iniciativa visa alertar sobre a seriedade da violência contra animais, partindo do princípio de que esses atos podem ser um reflexo de outras violências vivenciadas ou presenciadas pelo agressor. Além disso, a crueldade contra animais é frequentemente um indicativo de potenciais violências contra grupos mais vulneráveis, como crianças, mulheres e idosos.

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"Precisamos nos afastar de uma educação antropocêntrica. A Ampara sempre acreditou que a educação é a chave para melhorar a vida dos animais, especialmente quando direcionada a crianças e adolescentes. Chamamos isso de 'educação humanitária em bem-estar animal', e a vemos como uma solução para construir uma sociedade mais empática, com menos violência e maior respeito", afirmou Rosângela Gerbara, diretora de relações institucionais da Ampara.

Rosângela enfatiza que essa aproximação deve ser gradual, ensinando a criança a ser gentil e a respeitar o tempo e o comportamento de cada espécie. O ideal é que esse contato ocorra na natureza ou em ambientes que simulem o habitat natural dos animais. O desenvolvimento da empatia, segundo ela, é estimulado pela interação com os animais, ajudando as crianças a compreenderem os sentimentos e necessidades alheias, promovendo o respeito e diminuindo a violência e a intolerância.

Mudar a percepção do animal de objeto para ser vivo é fundamental. Viviane Pancheri, voluntária há 15 anos na ONG Toca Segura, que cuida de cerca de 400 animais em abrigos no Guará II (DF) e em Novo Gama (GO), relata que a organização manteve por anos um programa educacional direto em escolas do Distrito Federal.

"É crucial que as crianças compreendam que os animais sentem medo, abandono, alegria – que são, em suma, sencientes", explica Viviane.

No abrigo, a Toca Segura recebe famílias voluntárias, que participam de forma pontual ou contínua. Lá, praticam a "educação empática", demonstrando a importância do cuidado e da atenção. Através do convívio com os cães do abrigo, trabalham-se valores e a forma como as crianças internalizam a responsabilidade.

Essa interação é sempre cuidadosamente planejada, visando tanto o bem-estar da criança quanto a proteção dos animais contra estresse ou qualquer forma de violência.

"Trabalhamos com animais que já sofreram abandono e violência. Alguns passaram por privações e são mais arredios, exigindo um cuidado adicional", relata Viviane.

Para fomentar esses momentos de troca, a ONG organiza pequenos eventos, como os "domingos de passeio". Voluntários levam um animal para uma breve caminhada. Essa atividade, embora rápida, é vital para acostumar os animais à presença humana, tornando-os mais dóceis e facilitando a adoção. Crianças que participam desses eventos também aprimoram sua interação com os animais.

"Um caso que me emociona sempre é o de uma menina que, aos 15 anos, procurou nossa ajuda para superar o medo de cachorros. Em pouco tempo, ela já realizava diversas tarefas de cuidado e, hoje, é veterinária", compartilha Viviane.

Os adolescentes voluntários também desempenham um papel crucial nas feirinhas de adoção, garantindo que os animais estejam limpos e hidratados. Essa rotina de cuidado ensina sobre a importância da constância e do trato respeitoso com os animais.

"É semelhante ao cuidado com animais comunitários. O exemplo é poderoso. Se um vizinho ou parente tem um animal, é bom levar a criança para conhecê-lo. Ela aprende muito observando", comenta Viviane.

Para crianças mais velhas e adolescentes, Viviane destaca a importância da responsabilidade. "É fundamental aproximar esses animais, mostrando a relevância do cuidado de forma supervisionada. Não se trata de apenas dizer 'isso está errado', mas de guiar a criança na construção dessa responsabilidade. Isso se aplica também aos cães comunitários. Alimentar animais de rua, por exemplo, é uma excelente prática. Ver a criança oferecendo ajuda e elogiá-la por essas boas ações contribui para a formação de um ser humano melhor", conclui.

Programas públicos

A prefeitura de São Paulo, através de seus abrigos públicos, mantém um centro de adoções com centenas de animais, predominantemente cães e gatos. O programa municipal foca na promoção da guarda responsável e da educação ambiental. O espaço recebe grupos escolares de até 30 crianças, mediando o contato com os animais para desenvolver a consciência dos pequenos, que se tornam multiplicadores em suas casas.

"A criança atua como um agente multiplicador, levando para sua família e comunidade informações e a compreensão da importância de respeitar os animais", explica Telma Tavares, gestora do espaço pela Secretaria Municipal de Saúde.

A estratégia central é utilizar a sensibilização durante as visitas como um ponto de partida para as orientações. O projeto "Superguardiões", iniciado em 2019, funciona mediante agendamento e, em 2025, registrou mais de 1.900 visitantes, incluindo idosos. Além deste programa de portas abertas, há o "Leituras", dedicado a crianças em fase de alfabetização, que leem para os cães e gatos do Centro Municipal de Adoção.

Telma relata que algumas escolas integraram a iniciativa ao processo de letramento: as crianças não só liam histórias para os animais, mas também aprendiam sobre suas trajetórias e escreviam sobre eles.

"Essas ações facilitam a adoção posterior. Os animais se tornam mais dóceis e se habituam às visitas. Obviamente, selecionamos aqueles que não são agressivos, mas esse contato contribui para conscientizar e educar para práticas sustentáveis", afirma Telma.

O processo de adoção segue algumas "regras de ouro", sugeridas por Telma e Viviane:

É fundamental verificar se todos os membros da família concordam e estão cientes das responsabilidades inerentes à posse de um animal;

É preciso avaliar realisticamente se a família possui as condições necessárias para cuidar do animal, não apenas financeiras, mas também tempo disponível e capacidade de adaptar a rotina;

Deve-se refletir se o planejamento de vida da família é compatível com a adoção;

Um planejamento cuidadoso é essencial para evitar o abandono e garantir que os cuidados sejam mantidos de forma adequada.

FONTE/CRÉDITOS: Com informações da Agência Brasil